As Principais Teses de Lutero

A. Introdução

Venho trabalhando sobre as principais teses de Lutero que acabaram por produzir a Reforma Protestante Luterana já há algum tempo. Esta é a terceira versão de um artigo com o mesmo título (“Principais Doutrinas de Lutero”), que é só distinguido dos anteriores pelo seu subtítulo, que dá número da versão: esta é a Versão 3. As versões anteriores, mantidas neste blog História da Igreja (por causa de uma mania que herdei de Karl R. Popper [1]), podem ser lidas nos meus outros blogs.

B. A Questão Histórica das Fontes da Pensamento Teológico Cristão

Na época em que Jesus exerceu o seu ministério na Palestina não havia o que pudesse ser chamado de Pensamento Teológico Cristão – ou, para simplificar, uma Teologia Cristã. Jesus, seus discípulos e seus primeiros seguidores eram todos judeus – e, por isso, aceitavam, em grande medida, o que se pode chamar de Pensamento Teológico Judaico – ou Teologia Judaica.

Quais eram as “fontes” desse Pensamento Teológico Judaico? De onde vinha, por assim dizer, a sua “matéria prima”? No fundo mesmo, ou em última instância, a matéria prima da Teologia Judaica era a memória do povo judeu. E essa memória, lá pelos anos iniciais de nossa era, estava registrada basicamente em duas fontes:

  • As Escrituras Judaicas (que os Judeus chamam de “Tanakh” e os Cristãos, que se apropriaram delas, chamam de “Velho Testamento”), que, na época de Jesus, era um cânon fechado e até mesmo traduzido para o Grego, e que tinha três componentes: “Torah” (A Lei – o Pentateuco), “Nevi’im” (Os Profetas) e “Ketuvim” (Demais Escritos) [2]: ao todo, vinte e quatro livros (que, no Velho Testamento dos Cristãos viram trinta e nove [3]).
  • Um copioso conjunto de Tradições Escritas, composto de análises e comentários das Escrituras Judaicas feitas por rabinos famosos e outros teólogos judaicos, que recebe diversos nomes, como Talmud (que, internamente, é classificado em várias categorias: Mishnah, Gemara, etc), Midrash [4].

Tanto as Escrituras Judaicas como o Talmud, Midrash, etc., existiram, inicialmente, como Tradições Orais que só mais tarde foram colocadas em forma escrita. Mais importante do que os detalhes é o fato de que os Judeus possuíam as Escrituras Judaicas e um conjunto de Tradições Escritas (em ambos os casos precedidos de Tradições Orais).

Evidentemente, os Cristãos da Igreja Primitiva, que era inicialmente uma seita judaica, aceitaram essas duas categorias. No devido tempo, os Cristãos começaram a desenvolver suas próprias Escrituras, também, em especial no caso dos Evangelhos e do livro de Atos dos Apóstolos, calcados em Tradições Orais (não havia, tanto quanto se saiba, nenhum copista registrando em tempo real tudo o que acontecia e tudo o que Jesus, os doze apóstolos e demais circunstantes diziam). As Epístolas ou Cartas certamente já nasceram como textos escritos. As Escrituras Cristãs (que oportunamente vieram a ser chamadas de Novo Testamento) só se tornaram um cânon razoavelmente fechado por volta da segunda metade do Século 4. Uma carta de Atanásio, bispo de Alexandria, escrita em 367, é a evidência mais antiga que existe de que as Escrituras Cristãs estavam basicamente fechadas naquela época – o que não significa que um ou outro livro não tenha tido sua inclusão no cânon questionada e que um outro livro que ficou de fora não tenha sido incluído no conjunto em alguns lugares.

Ao mesmo tempo em que se formava o cânon do Novo Testamento, havia comentários aos diversos livros, discussões da melhor forma de os Cristãos se organizarem como igrejas, formulações teóricas diversas e discussões das doutrinas que deveriam aceitas e das que deveriam ser rejeitadas, questões de culto e ritual, questões de comportamento e disciplina, questões relacionadas à melhor forma de se relacionar com os não-cristãos e, se possível, conquista-los para a fé cristã, etc. A partir do Século 4, em especial do ano 313 (Edito de Milão, pelo qual o Imperador Constantino, o Grande, foi o principal responsável), o Cristianismo passou a ser considerado uma religião lícita no Império Romano e, a partir do ano 380, passou a ser a religião oficial do Império (Edito de Tessalônica, baixado pelo Imperador Teodósio), havendo grandes mudanças nas hostes cristãs em decorrência desses desenvolvimentos. Entre outras coisas, o Império começou a subsidiar a Igreja Cristão, mas, em compensação, os imperadores romanos se sentiram no direito de se envolver com questões de doutrina e conduta… Voltando para o lado aparentemente positivo da coisa, os cristãos começaram a ocupar cargos na máquina burocrática e até mesmo nas forças armadas, os teólogos cristãos começaram a discutir o relacionamento do Cristianismo com as religiões pagãs (que, a partir de 380, se tornaram ilícitas no Império), etc. Constantino, o primeiro imperador romano a se tornar cristão convocou, em 324, o Primeiro Concílio Ecumênico, realizado em 325 na cidade de Niceia, que tomou resoluções importantes para a vida da Igreja Cristã, etc. Tudo isso começou a gerar uma enorme Tradição que, em muitos casos, firmava costumes e sacramentava doutrinas. Com o tempo, em especial depois do Império Romano ter desaparecido no Ocidente, a Igreja começou, em grande medida, a ocupar o seu lugar na vida da sociedade, começando a desenvolver todo um conjunto de normas e leis que vieram a se constituir, oportunamente, no Código de Direito Canônico, enriquecendo a tradição.

Assim, podemos dizer com confiança que, pouco a pouco, a conduta e a crença dos cristãos passaram a ser reguladas, como no caso dos judeus, por duas fontes de autoridade:

  • As Escrituras Cristãs que, acrescidas das Escrituras Judaicas, se tornaram a Bíblia Sagrada dos cristãos;
  • Um corpo rico de Tradições Escritas, na forma de pareceres, normas, decisões de Concílios, leis, resoluções episcopais, em especial do Bispo de Roma, que veio a ser chamado de Papa a partir de um determinado momento, etc.

No devido tempo, à medida que o Pensamento Teológico Cristão interagia com o Pensamento Filosófico Pagão, ficou evidente que, além dessas duas, Escritura e Tradição, havia que se considerar mais duas fontes de autoridade:

  • A Experiência Humana, a capacidade do ser humano de observar o mundo exterior, constatar e registrar o que existe, como as coisas interagem, como os fatos se geram e os eventos acontecem, etc., bem como de inspecionar o seu próprio mundo interior, constatar seus sentimentos e suas emoções, descobrir que algumas coisas e alguns acontecimentos causam prazer e alegria, outras, dor e sofrimento, etc.
  • A Razão Humana, a capacidade do ser humano de refletir sobre o que ele observa do mundo externo e inspeciona no seu mundo interior e fazer perguntas e indagações, bem como tentar encontrar e construir respostas para elas, etc.

Agostinho, bispo de Hipona, e o maior pensador ou teólogo da Igreja Cristã pelo menos em seus primeiros mil e duzentos anos, era um indivíduo bem preparado na filosofia pagã e bastante sensível em relação ao que se passava ao seu redor e dentro dele. É de sua pena a primeira autobiografia da Tradição Cristã, que é uma reflexão profunda sobre sua Experiência Humana, em especial sobre sua conversão para o Cristianismo. No Século 13, o maior concorrente de Agostinho para a posição de maior pensador ou teólogo ou filósofo da Igreja Cristã em seus primeiros quinze séculos, atribuiu um papel fundamental para a Razão Humana na formulação da Teologia Cristã.

Tudo isso é trazido à tona para dizer que, no final da Idade Média, quando Lutero estava se preparando para ser, contra a vontade paterna, um teólogo, era matéria pacífica que o Pensamento Teológico Cristão ou a Teologia Cristã dependia de quatro fontes básicas:

  • As Escrituras Sagradas
  • A Tradição da Igreja
  • A Experiência Humana
  • A Razão Humana

Afirmar isso não é admitir, de modo algum, que essas quatro fontes tivessem o mesmo grau de autoridade dentro do Cristianismo ou para cada pensador ou teólogo individual. O peso de cada uma das fontes era diferente, sendo, sem dúvida alguma, o peso das Escrituras o maior. No entanto, a Igreja Cristã (que no final do Século 15 era, no Ocidente, apenas uma, a Igreja Católica) não se esquecia do fato de que foi a própria igreja, através de suas lideranças eclesiásticas e teológicas, através de seus Concílios, etc., que havia determinado que livros seriam considerados Escritura Sagrada para os cristões e que livros ficariam de fora… Vista a questão desse ângulo, parece que fonte “Tradição Eclesiástica” deva ter mais peso do que a fonte “Escrituras Sagradas”…

C. A Autoridade Exclusiva da Bíblia (Sola Scriptura)

Assim, dentro da Igreja Católica, aceitavam-se várias fontes de autoridade, entre elas a Bíblia, mas havia uma forte tendência, em especial na Cúria Romana, a considerar que as outras três fontes deveriam ficar subordinadas à chamada função Magisterium da Igreja, que, em resumo, dizia que a própria igreja, levada em conta a sua Tradição Eclesiástica, é a principal fonte de autoridade, e, dentro da igreja, a hierarquia clerical, da qual o Papa é o Pontífice Máximo.

Desta forma, temos, na Igreja Católica do início do Século 15, o reconhecimento da autoridade da Bíblia, dos Pais da Igreja, dos Concílios, do restante da Tradição (mesmo que não respaldado pela Bíblia, pelos Pais da Igreja, e pelos Concílios), dos Pronunciamentos Papais (Bulas, Encíclicas, etc.) – mas tudo isso ficava subordinado à função Magisterium da Igreja, que acabava se resumindo na Autoridade Papal.

Assim, no mundo em que Lutero cresceu, dentro da Igreja Católica, era o Papa que, em última instância:

  • Decidia como a Bíblia deveria ser interpretada;
  • Determinava que pronunciamentos de quais Pais da Igreja carregavam maior autoridade;
  • Convocava Concílios, promulgava ou não suas decisões, e, uma vez promulgadas, as interpretava;
  • Selecionava as Tradições da Igreja que iriam ser levadas a sério;
  • Resolvia se deveria emitir uma nova Bula ou Encíclica pronunciando-se sobre determinado assunto e reinterpretando, ou mesmo tornando sem efeito, pronunciamentos de Papas anteriores.

Lutero, que era um monge – agostiniano – sério e disciplinado, e que, em 1512, ao receber o seu grau de Doutor em Teologia e se tornar Professor de Teologia da Universidade de Wittenberg, assumiu os seus deveres com extrema responsabilidade, tendo o maior respeito para com a Bíblia e para com a Igreja (em particular para com sua Ordem Agostiniana), mas também para com a sua Razão e a sua Experiência, não imaginava que, dentro de menos de dez anos estaria excomungado e sendo perseguido por sua amada Igreja, só não tendo sido preso e queimado vivo porque o Príncipe Frederico, “O Sábio”, da Saxônia, região da Alemanha em que Lutero nasceu e viveu, resolveu protegê-lo, defendê-lo e apoia-lo, assim salvando sua vida e permitindo que ele desse sua contribuição para mais uma grande divisão do Cristianismo – a segunda [5].

Lutero, no plano consciente, veio a rejeitar todo esse esquema e colocar em seu lugar apenas  a Bíblia, as Escrituras Sagradas: este o princípio basilar de sua teologia, o chamado Sola Scriptura.

É importante registrar que, ao rejeitar esse esquema de autoridade, Lutero rejeita, basicamente, a função Magisterium da Igreja, a autoridade da Igreja Católica (vale dizer, do Papa, dos Concílios, dos Pais da Igreja, etc.) de interpretar a Bíblia. A Bíblia, assim, fica, em seu plano consciente, a única autoridade.

Mesmo a Razão Humana ou a Experiência Humana (no mundo secular, religioso ou místico) não têm autoridade para Lutero à parte da Bíblia. Se a Razão Humana ensina algo contrário às Escrituras, ou mesmo independente delas, a Razão deve ser rejeitada. De igual forma, a Experiência Humana (experiências religiosas ou experiências místicas, visões, revelações individuais, etc.) deve se submeter à autoridade das Escrituras.

Isso é o que diz Lutero no plano consciente.

Quando ele estava diante do Imperador Carlos V, na Dieta de Worms, sendo interrogado e sendo acusado de heresia, e o representante papal lhe perguntou se ele renegava tudo o que ele havia escrito de crítica à Igreja Católica, à sua hierarquia, e ao Papa, Lutero respondeu, depois de haver pedido para pensar durante vinte e quatro horas:

“A menos que seja convencido por testemunho das Escrituras e por argumentos claramente racionais, porque nem no Papa nem nos concílios eu acredito, já que está mais do que provado que eles frequentemente erram e se contradizem, eu, com base nos textos da Sagrada Escritura que indiquei, sou obrigado a me submeter à minha consciência e ficar fiel à Palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero me retratar de nada, porque agir contra a própria consciência não é certo nem seguro. Nada mais nem diferente posso fazer. Aqui estou e aqui fico. Que Deus me ajude!” [6]

Nesta magnífica fala, Lutero afirma que tanto o testemunho das Escrituras como argumentos oriundos da Razão podem convencê-lo. Invoca ainda a necessidade de permanecer fiel à sua consciência, não indo contra ela, que lhe manda ficar fiel à Palavra de Deus.

Uma interpretação isenta dessa fala de Lutero indica que o compromisso dele apenas com a Escritura não é tal que o obrigue a prescindir dos ditames da Razão e da consciência.

Vejamos por quê.

D. A Interpretação das Escrituras

Embora Lutero faça afirmações sobre a autoridade da Bíblia que pareçam indicar que ele acreditava que o sentido daquilo que a Bíblia narra, proclama, e ensina seja cristalinamente claro, transparente e indiscutível, e, portanto, manifesto e evidente, eis o que afirma Alister E. McGrath:

“O Protestantismo, em sua fase formativa, caracterizava-se pela crença – uma crença radical e libertadora, ainda que perigosa – de que a Escritura é clara o suficiente para que o cristão comum a entenda e a aplique sem necessidade de ter uma educação clássica, experiência filosófica ou teológica, orientação clerical ou tradição eclesiástica, crença essa fundamentada na expectativa confiante de que as passagens difíceis seriam esclarecidas pelas mais claras” [7].

Lutero, como bom teólogo, sabia, porém, que o sentido daquilo que a Bíblia diz nem sempre é manifesto e evidente.

 A Igreja Católica já havia consagrado, na época de Lutero, um método de interpretação bíblica –chamado de “Quadriga” (nome de uma carruagem de quatro rodas) – que Lutero certamente não desconhecia. Segundo esse método, há quatro níveis em que se pode e se deve interpretar a Bíblia:

  • Literal: se nada o contraindicar, deve-se interpretar a Bíblia literalmente, segundo o sentido do texto que se considera “natural”;
  • Alegórico:se a interpretação natural não parecer viável, deve-se interpretar a passagem em um sentido teológico ou doutrinário (relativo ao que se crê), sentido esse que parece mais profundo porque faz uso de linguagem simbólica, metafórica, analógica ou outra figura de linguagem (razão pela qual o sentido alegórico também é chamado de simbólico, metafórico ou analógico);
  • Anagógico: o sentido anagógico se relaciona (de forma não-literal) à esperança cristã (isto é, é relativo ao que se espera);
  • Tropológico: o sentido tropológico se relaciona (também de forma não-literal) à moralidade (isto é, ao que se deve fazer), ficando muitas vezes “escondido” atrás de uma imagem poética ou de expressões que, se interpretadas literalmente, seriam inaceitáveis (“os montes saltaram como carneiros, e as colinas, como cordeiros” – Salmo 114:4) [8].

Fica evidente, do que acabou de se dizer, que o sentido literal tem primazia, para Lutero. Se, porém, o sentido literal não é claro, ou sugere algo que parece contradizer o que outra passagem da Bíblia diz, ou sugere, de alguma forma, uma heresia ou uma imoralidade, deve-se pressupor que o que é dito ali deve ser interpretado não-literalmente, porque tem um sentido mais profundo do que o literal (sensus plenior ou sensus spiritualis). Neste caso, o texto deve ser interpretado num desses sentidos (o que fizer “mais sentido”) [9].

Como Lutero deixa claro em sua brilhante e comovente manifestação na Dieta de Worms (1521), ele só abandonaria seus pontos de vista (considerados heréticos pela Igreja Romana) se fosse convencido de que eles contrariavam as Escrituras. “Convencer” é um processo racional. Por isso ele diz: “A menos que seja convencido por testemunho das Escrituras e por argumentos claramente racionais…” ele não abandonaria suas ideias e permaneceria cativo de sua consciência, que lhe indica ser fiel às Escrituras – “porque agir contra a própria consciência não é certo nem seguro” [10].

O que Lutero afirma, aqui, é que o indivíduo – não mais a Igreja – é responsável perante Deus e a sua consciência pela interpretação que ele faz do texto das Escrituras, interpretação essa na qual ele deve aplicar a sua razão. Esta é, para Alister E. McGrath, a “ideia perigosa” que Lutero introduz no Cristianismo, e que irá causar, no Protestantismo, a proliferação de cismas, denominações, e sub-denominações [11].

Assim, se a interpretação que um crente faz da Escritura, em sua função sacerdotal (sacerdócio universal dos crentes), conflita com a interpretação de outro crente, duas saídas são admissíveis:

  • saída sincrônicade, através do debate, buscar um consenso, aprender colaborativamente com os contemporâneos – razão pela qual Lutero não só aceitava, mas literalmente procurava debates e disputações;
  • saída diacrônicade, através da leitura dos Pais da Igreja [a Tradição!!!], encontrar respaldo para a interpretação que se adota – razão pela qual Lutero era leitor respeitoso dos Pais da Igreja, em especial de Agostinho, que ele considerava o maior deles, chegando até mesmo a afirmar que, para ele, a Bíblia e Agostinho tinham autoridade [12].

E. A Justificação pela Graça (Sola Gratia)

Lutero não chegaria a colocar ênfase na doutrina da Justificação pela Graça (Sola Gratia), se não tivesse enfatizado, antes, a autoridade exclusiva da Bíblia e o direito do crente de interpreta-la sem a mediação da Igreja, através do Papa, dos Concílios, dos Pais da Igreja, da Tradição. Vimos, porém, que, no caso de divergência na interpretação da Bíblia entre os crentes, Lutero admitia o recurso aos Pais da Igreja, em especial a Agostinho.

Como cristão e teólogo, a obsessão de Lutero era com a questão: “O que devo fazer para ser salvo?”

Lendo a Bíblia, e refletindo sobre ela, e sendo um monge agostiniano, que, portanto, tem em Agostinho a figura mais importante, fora da Bíblia, Lutero chegou, na procura de uma resposta bíblica para essa pergunta, a uma posição, mais uma vez, muito diferente daquela da Igreja Católica.

Contra a Igreja Católica Medieval, que respondia a essa pergunta com “participação nos Sacramentos”, ocasião em que se recebe a graça divina, e “boas obras”, em que se conquistam méritos para a salvação, Lutero defendeu a tese de que a natureza do ser humano, por causa da Queda de Adão, no Éden, foi “totalmente corrompido”, e, portanto, é totalmente incapaz de fazer qualquer coisa, por mínima que seja, para sua salvação.

Felizmente, segundo Lutero, Deus intervém e, exclusiva e totalmente pela sua graça (Sola Gratia), sem qualquer participação do homem, justifica o pecador, e, assim, o perdoa, sem qualquer participação ou concorrência ou sinergismo nesse ato do beneficiado.

“O justo vive da fé” – isto é, na interpretação de Lutero, o homem é justificado pela fé.  A salvação é um “dom gratuito” de Deus.

Mas a natureza do homem foi de tal forma corrompida pelo pecado que ele não consegue nem mesmo aceitar a graça divina através da fé: até a fé com que ele vai aceitar a graça da salvação precisa lhe ser dada por Deus – é um dom divino (e, por conseguinte, um milagre) [13].

Por causa disso, o dom da graça, quando é feito, é irrecusável ou irresistível por parte daquele a quem é destinado.

F. A Vontade Escrava (De Servo Arbitrio), a Eleição e a Predestinação

Decorre do que foi dito no item anterior que a vontade humana, no tocante à opção pela salvação, é, por causa do pecado original, serva ou escrava de Satanás, sendo incapaz de escolher ou até mesmo de aceitar a salvação. Esta vem exclusivamente pela graça – e até a fé é um dom de Deus, não uma realização do ser humano.

Mas se o dom da graça (que  inclui o dom da fé) não é concedido a todos, não há outra saída a não ser defender as doutrinas da eleição e da predestinação no sentido duplo: para a salvação e para a condenação eterna. E aquele que não acredita pode ter certeza de que não está entre os eleitos, pois não recebeu o dom da fé. Nada há, por conseguinte, que ele possa fazer para alterar esse fato.

Assim, as doutrinas da servidão da vontade, da eleição e da predestinação se tornam virtualmente inarredáveis quando se aceita a exclusividade do Sola Gratia e se defende a tese de que a graça é irrecusável e irresistível.

G. O Sacerdócio Universal, o Poder Espiritual e o Poder Secular

Ao afirmar a autoridade exclusiva da Bíblia, o direito de o crente interpreta-la por si mesmo, e, assim, contestar e rejeitar a função mediadora da Igreja, do Papa, dos Concílios, da Tradição (e, por conseguinte, da Virgem Maria, dos Santos), e do Clero, Lutero acabou sendo obrigado a aceitar quatro corolários doutrinais importantes:

  1. Primeiro, a tese (bíblica) do sacerdócio universal dos crentes. E, se todos os crentes são sacerdotes, não há, a fortiori, distinção essencial entre clero e laicato. A diferença que existe entre um clérigo e um leigo é uma distinção funcional apenas – de ofício.
  2. Segundo, se o crente é sacerdote, seu ofício (sua função na sociedade), ainda que totalmente secular, deve ser visto como um chamado ou uma vocação, tão digna e importante quando o chamado ou a vocação do clérigo ou mesmo do Papa, e, por conseguinte, com uma dimensão espiritual.
  3. Terceiro, na prática, essas duas doutrinas, a do sacerdócio universal dos crentes, e do ofício (ainda que secular) como chamado e vocação, acabam por implicar, na prática, uma terceira consequência: a insignificância da distinção entre o espiritual e o secular. Com isso, o secular ganha enorme importância, por que é no mundo, não fora dele, que o cristão deve viver a vida cristã, e sua santificação acontece no mundo, não fugindo do mundo (para mosteiros e conventos).
  4. Quarto, e como conclusão natural, Lutero nega que o Papa, suposto chefe do poder espiritual, tenha qualquer ascendência sobre os detentores do poder secular. Infelizmente, em parte em deferência aos príncipes alemães que o defenderam, Lutero, em vez de defender a separação entre a Igreja e o Estado, como vieram a fazer os protestantes americanos, quando a Reforma chegou aos Estados Unidos, deu força ao Estado – o poder temporal, resolvendo, em parte, o seu conflito com o Papado, mas preparando o estágio para o lastimável apoio ao Nazismo que a Igreja Luterana veio dar no Século 20.

NOTAS

[1] Tanto quanto me lembre, sempre tive um certo senso histórico que me fez (e ainda me faz) guardar tudo o que me passa pelas mãos e registrar quase tudo que faço (como se eu fosse um relicário, arquivista e curador de museu). Minha primeira agenda anual data de 1961, quando eu tinha meros dezessete anos. Tenho todas as minhas agendas guardadas, desde então, até hoje. Também  tenho listas de minhas despesas desde essa época – que marca a data em que saí da casa de meus pais e passei a ter a responsabilidade de controlar minha vida e, naturalmente, minhas – então muito parcas – finanças (entre outras coisas). Quando li Karl Raymund Popper pela primeira vez, no ano de 1970, instigado por meu Orientador de Doutorado, William Warren Bartley, III, que, por sua vez, havia sido Orientando de Doutorado de Popper, fiquei positivamente surpreso ao descobrir que Popper não alterava um texto anterior que havia escrito, a não ser acrescentando notas explicativas no rodapé (ou no final do texto), mesmo que o texto original contivesse erros flagrantes e admitidos – se fosse esse o caso, a correção aparecia apenas na nota. Seu primeiro livro a fazer sucesso, Logik der Forschung (publicado, como insiste Popper, no Outono Europeu de 1934, mas, lastimavelmente, indicando como data de publicação 1935 – uma falha para ele imperdoável), que foi traduzido para o Inglês pelo próprio autor, com o título The Logic of Scientific Discovery (a data da tradução sendo 1958, mas, mais uma vez, lastimavelmente, aparecendo como 1959), e traduzido para o Português, como A Lógica da Pesquisa Científica, por Leônidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota, em 1974, é um primor de notas de rodapé. Há as notas que apareceram junto com o texto original, com a numeração original, e há as notas acrescentadas posteriormente, com um, dois ou três asteriscos, dependendo da edição ou da ocasião em que foram acrescentadas. Além disso há Apêndices de vários tipos – desde “Apêndices Originais” até “Novos Apêndices” – estes com a data em que foram acrescentados. Não sou tão exagerado assim, mas tento manter um senso histórico acerca da evolução de minhas ideias (e de outras coisas que aqui não cabem)…

[2] Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Tanakh#Nevi.27im.

[3] Como é que os vinte e quatro livros da Bíblia Judaica viraram trinta e nove no Velho Testamento Protestante? Da seguinte forma. A Lei contém cinco livros – o Pentateuco dos Cristãos (Gênesis, Êxodo, Levíticos, Números e Deuteronômio). Os Profetas contêm oito livros: Josué, Juízes, Samuel [contado como um só], Reis [contado como um só], Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Profetas Menores [que são doze no Velho Testamento Cristão, mas contados como um na Tanakh: Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias]. Os Escritos contêm onze livros: três poéticos (Salmos, Provérbios e Jó); cinco chamados de rolos (Cântico dos Cânticos, Lamentações, Rute, Eclesiastes e Ester); e três na categoria “outros” (Daniel, Esdras–Neemias [contado como um só] e Crônicas [contado como um só]. Total: 24. Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Tanakh#Nevi.27im. É bom frisar que o Velho Testamento Católico contém mais livros que o Velho Testamento Protestante, que é igual à Bíblia Judaica nesse respeito. Quando as Escrituras Judaicas foram traduzidas para o Grego, na tradução chamada de Septuaginta, vários livros que os Judeus consideravam Apócrifos foram acrescentados. Quando a Septuaginta foi traduzida para o Latim, na tradução chamada Vulgata, num esforço coordenado por Jerônimo, alguns os livros que haviam sido acrescentados foram traduzidos e se incorporaram ao Velho Testamento Católico —  sendo, por vezes, distinguidos dos demais e chamados de Deutero-canônicos). Por ocasião da Reforma Protestante, os reformadores tomaram a decisão de deixar de fora os livros acrescentados na tradução do Hebraico para o Grego e do Grego para o Latim, ficando só com os livros que eram aceitos pelos Judeus. Os livros Apócrifos ou Deutero-canônicos, que fazem parte do Velho Testamento Católico, mas não do Velho Testamento Protestante, são sete e mais trechos de outros dois: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico [não confundir com Eclesiastes], Baruque, I Macabeus e II Macabeus, mais trechos de Ester (10:4 – 16:22) e Daniel (caps.13-14). O Novo Testamento aceito por Católicos e Protestantes não tem diferenças, embora Lutero tenha sido muito tentado a não traduzir vários livros, entre eles Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse, em sua tradução do Novo Testamento para o Alemão, feita com base num texto Grego do Novo Testamento publicado por Erasmo de Roterdã. Lutero chegou a chamar a Epístola de Tiago de “livro de palha” em seu prefácio à Tradução do Novo Testamento para o Alemão. Vide Roland H. Bainton, Here I Stand: A Life of Martin Luther (New American Library / Mentor Book, New York, 1950, 1955), p.259, 261.

[4] Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Talmud e https://en.wikipedia.org/wiki/Midrash.

[5] A primeira grande divisão do Cristianismo se deu, oficialmente, em 1054, perto de mil anos atrás, quando o Cristianismo Oriental, que falava Grego, e tinha sede em Constantinopla, rompeu com o Cristianismo Ocidental, que falava Latim, e tinha sede em Roma. A divisão que veio resultar em grande medida da ação de Lutero foi, portanto, uma divisão do Cristianismo Ocidental apenas, que em nada afetou o Cristianismo Oriental. Em 2017 o Cristianismo comemora (?) os 500 anos da divisão de 1517. Trinta e sete anos depois, em 2054, comemorará (?) um milênio da divisão entre o Cristianismo Ocidental e o Cristianismo Oriental. Sem cair num cabalismo numérico, na História do Cristianismo vale a pena levar a sério os blocos de 500 anos (começando com o Século 6 e continuando com os Séculos 11, 16 e 21… No início do Século 6, tendo sido destruído o Império Romano no Ocidente, a Igreja Ocidental teve de certo modo que assumir o seu lugar, tornando-se “Imperial”. Em meados do Século 11, a Igreja Ocidental e a Igreja Oriental se separaram, e o Cristianismo deixou de ser Uno. No início do Século 16, há novo rompimento, agora dentro da Igreja Ocidental, e a Igreja Católica passa a sofrer concorrência dentro dos domínios em que antes imperava sozinha (apenas com uma ou outra ameaça dos Muçulmanos). No início do Século 21 estamos vendo o Cristianismo se fortalecer no Sul e enfraquecer no Norte, onde sempre foi forte… e muitos sentem, mais uma vez, uma forte Ameaça Islâmica…  Será que é cisma da minha parte ou o Século 21 promete?

[6] A tradução do Alemão é minha. O texto no original em Alemão é: “Wenn ich nicht durch Zeugnisse der Schrift und klare Vernunftgründe überzeugt werde; denn weder dem Papst noch den Konzilien allein glaube ich, da es am Tage ist [feststeht], daß sie öfter geirrt und sich selbst widersprochen haben, so bin ich durch die Stellen der Heiligen Schrift, die ich angeführt habe, überwunden in meinem Gewissen und gefangen in dem Worte Gottes. Daher kann und will ich nichts widerrufen, weil wider das Gewissen [etwas] zu tun weder sicher noch heilsam ist. Hier stehe ich und kann nicht anders! Gott helfe mir, Amen!” Apud Heimo Schwilk, Luther – Der Zorn Gottes: Biografie (Blessing, München, 2017), p.237. Vide também http://www.luther.de/leben/worms.html. As palavras entre colchetes foram acrescentadas a partir da página mencionada na Internet. No primeiro caso elas esclarecem o sentido de uma expressão idiomática. No segundo, a palavra em colchetes parece faltar no texto do livro. No livro Martin Luther – Rebell einer Zeit des Umbruchs: Eine Biografie, de Heinz Schilling (C. H. Beck, München, 2012, 3.ed. 2017), p.226, há uma inversão na ordem das últimas frases (que alguns consideram ter sido acrescentadas ao discurso pelo editor do relato), inversão essa que eu optei por seguir na tradução: “Ich kann nicht anders. Hier stehe ich. Gott helfe mir. Amen.” O livro de Tillmann Bendikoswki, Der deutschen Glaubenskrieg: Martin Luther, der Papst und die Folgen (C. Bertelsmann, München, 2016), pp.35-36, concorda com Schilling.

[7] Alister E. McGrath, A Revolução Protestante (Editora Palavra, Brasília, 2012), p.209; tradução brasileira de Christianity’s Dangerous Idea (Harper, New York, 2007).

[8] Vide Alister E. McGrath, A Revolução Protestante, op.cit., p.35; cp. pp. 223-224. Na verdade, todo o capítulo 9, “A Bíblia e o Protestantismo”, é relevante – pp.201-239. Vide também todo o capítulo 6 de outro livro de Alister E. McGrath, Reformation Thought: An Introduction (Wiley-Blackwell, West Sussex, 4a ed., 2012). Não tenho informação sobre a tradução desse livro para o Português. Vide também ainda um outro livro de Alister E. McGrath, Origens Intelectuais da Reforma (Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2007), capítulos 4 (“As Escrituras: Tradução, Texto e Tradição”) e principalmente 5 (“A Interpretação das Escrituras”), pp.123-150 e pp.151-167; tradução brasileira de The Intellectual Origins of the European Reformation (Blackwell, Oxford, 1987, 2a ed. 2004).

[9] Segundo McGrath (Origens Intelectuais da Reforma, p.152), Lutero usou esse “método quádruplo” de interpretação em seu comentário aos Salmos, elaborado quando ainda era bem jovem, de 1513-1515, e estava começando sua carreira de Professor de Teologia Bíblica na Universidade de Wittenberg.

[10] Vide Roland H. Bainton, Here I Stand: A Life of Martin Luther, op.cit., cap. 10.

[11] Como assinalado atrás, o título no original do livro A Revolução Protestante é Christianity’s Dangerous Idea.

[12] Vide, a esse respeito, Alister E. McGrath, A Revolução Protestante, pp. 211-212.

[13] Foi por isso que David Hume, filósofo escocês cético e irreverente, que viveu no Século 18 na Escócia, terra que era oficialmente presbiteriana, mas viveu também em Londres e em Paris, provocou os calvinistas (e os luteranos) afirmando, no final do seu artigo sobre milagres (que só foi publicado postumamente por receio da reação calvinista e protestante em geral), que não só o Cristianismo fora acompanhado de milagres quando de seu surgimento, mas, até hoje, ninguém que seja razoável consegue aceita-lo sem que haja um outro milagre… Vide An Inquiry Concerning Human Understanding (London, 1748), cap. X, último parágrafo: “So that, upon the whole, we may conclude that the Christian religion not only was at first attended with miracles, but even at this day cannot be believed by any reasonable person without one. Mere reason is insufficient to convince us of its veracity. And whoever is moved by faith to assent to it is conscious of a continued miracle in his own person which subverts all the principles of his understanding and gives him a determination to believe what is most contrary to custom and experience”.

Em Salto, 25 de Maio de 2017
(revisão de um artigo meu publicado em outro dos meus blogs anteriormente)

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