O Sacro Império Romano: Tentativa de Conceituação e Resumida História

Já se disse acerca do Sacro Império Romano que não era Romano, nem, exatamente, Sacro. E, quanto a ser Império, é forçoso admitir que o fosse, embora tenha sempre sido um Império diferente.

Quanto a não ser Romano, é evidente que não era. O Império em questão era, do ponto de vista étnico, caracteristicamente Germânico, nunca tendo sido Romano. Ele se localizava na Europa Central e não chegava sequer perto de Roma – embora, em diferentes momentos, tenha se comprometido a proteger Roma – ou, mais especificamente o Papado.

Quanto a não ser exatamente Sacro, também é evidente que não era, posto que era totalmente secular, embora, nos estágios iniciais, para legitimar-se e fortalecer sua autoridade, os Imperadores fizeram questão de se fazer coroar pelo Papa, comprometendo-se, em troca, defender, militarmente, o Papado e do local em que se localizava, geralmente a cidade de Roma, sendo esse o seu único vínculo com a cidade de Roma – um vínculo indireto, posto que o Papado nem sempre esteve sediado em Roma. Essa defesa do Papado e do local em que se encontrava se tornou mais importante depois que os antecedentes do primeiro Imperador do Sacro Império Romano (que foi Carlos Magno, ou Charlemagne) doaram à Igreja, mais especificamente ao Papado, extensos territórios na Itália que eles haviam conquistado em batalha. Esses chamados “Estados Papais” (ou, menos pomposamente, “Territórios Papais”) passaram a existir através de uma doação feita pelo Rei Franco Pepino, O Jovem, ao Papa Zacarias, confirmada, posteriormente, ao Papa Estêvão II, em troca de o primeiro desses papas o haver apoiado em um bem sucedido confronto político contra o fraco rei que ocupava o trono e, de fato, o coroado rei, no lugar do ocupante do trono – que não se pode dizer que era legítimo porque naquela época ninguém ocupava o poder legitimamente… A confirmação da doação foi feita ao papa seguinte porque este, querendo manter os favores que Pepino, O Jovem, havia feito ao Papado, o declarou “Patrício dos Romanos”. Eram territórios de tamanho significativo e foram mantidos pelo Papado, de meados do século 8 (quando foram doados, entre 754 e 756) até 1870, quando o Estado Italiano foi unificado e confiscou os Territórios Papais em troca da preservação de um minúsculo território em que a Igreja Católica seria soberana, que tornou-se, oportunamente, o Estado do Vaticano [1].

Quanto a ser Império, a história é um pouco mais complicada, mas ela explica a razão do envolvimento dos Reis Francos na negociação com o Papado… O Império Romano Clássico (vamos chama-lo assim), que sucedeu à República Romana, foi oficialmente fundado em 27 aC, através de Augusto César (reinado: 27 aC até 14 dC), que na Bíblia é chamado de César Augusto. Sobrinho e filho adotivo do grande Júlio César (que teve papel proeminente na transição da República Romana, que existiu de 509 aC até 27 aC, para o Império Romano), Augusto César reinou durante quarenta anos e era o Imperador Romano no trono quando Jesus nasceu.

O Império Romano Clássico durou, em princípio, de 27 aC até 476 dC no Ocidente e até 1453 dC no Oriente. No Ocidente, foi desmantelado pela invasão dos Povos Germânicos [2] que vieram do extremo Norte da Europa, e tomaram Roma, sua capital, e todo o resto da Itália, e, gradualmente, da Europa, de assalto.

No Oriente, pelos Turcos Muçulmanos do Império Otomano, que tomaram Constantinopla, e todo o resto, e os mantiveram sob controle, até a Primeira Guerra Mundial. Assim, o Império Romano Clássico durou, de certa forma, embora não intato, 1.480 anos, quase um milênio e meio – embora, no Ocidente tenha durado apenas 503 anos (de 27 aC até 476 dC).

Como assinalado, a queda do Império Romano Clássico no Ocidente se deu em decorrência da invasão, por Povos Germânicos, vindos do Norte da Europa, dos territórios localizados na Europa Central, com posteriores e graduais invasões de territórios da Europa Ocidental e da Europa Oriental, bem como do Sul da Europa, onde se encontra a Itália, e, dentro dela, Roma. No ano 410 dC já havia acontecido uma primeira invasão, seguida de saque, de Roma, através do rei germânico Alarico. O que houve em 476 foi a tomada final da cidade e do Império Romano Ocidental, que deixou de existir por um bom tempo (por 324 anos, para ser preciso).

Para evitar confusão, é oportuno assinalar que os Francos eram um desses povos Germânicos (esta sendo a categoria mais ampla, que, como vimos na Nota 2, incluía os Francos, Hunos, Godos, Ostrogodos, Visigodos, etc.

Os Francos [3] foram os primeiros a criar um reino bem estabelecido mais ou menos no Centro da Europa, tendendo para o Oeste, o Reino dos Francos (Regnum Francorum, ou simplesmente Francia), na região da Gália. Esse reino é a semente do que veio a ser hoje a França [4].

O Reino dos Francos foi fundado em 481, por Clóvis (Clóvis I), que reinou de 481 a 511 [5]. Ele e alguns dos reis subsequentes – Pepino II, conhecido como de Herstal, que reinou de 687 a 714 [6], Carlos Martel (filho de Pepino II), que reinou de 718 a 741 [7], Pepino, O Jovem (filho de Carlos Martel), já mencionado aqui, que reinou de 751 a 768 [8], e especialmente Carlos Magno (filho de Pepino, O Jovem), conhecido como Charlemagne, que reinou como Rei dos Francos a partir de 768 e como Imperador do Sacro Império Romano de 800 até sua morte, em 814 [9] – consolidaram e expandiram o Reino, que alcançou sua maior expansão com Charlemagne, no início do Século 9, justificando a pretensão de Charlemagne de mudar o nome do reino para Sacro Império Romano (Sacrum Imperium Romanum) [10].

Depois da morte de Charlemagne, o seu enorme Império começou a ser desmembrado, pela prática de dividi-lo entre os filhos. Nunca mais um Imperador do Sacro Império Romano governou sobre um território tão grande, até Carlos V, no período da Reforma.

Mas antes de falar de Carlos V, porém, é preciso que se diga que, a partir de um determinado momento, o Sacro Império Romano passou a ser dirigido por reis mais estritamente alemães, e não francos, Essa transição entre reis francos e reis propriamente alemães (ambas as etnias sendo germânicas) se deu no ano 962, quando assumiu o Império o Imperador Otto I, que reinou de 962 até 973 [11].

Carlos V (1500-1558) [12] foi Imperador do Sacro Império Romano de 1519 até 1556 [12x]. Antes de se tornar Imperador do Sacro Império Romano, Carlos V já era (desde 1516, quando tinha meros dezesseis anos), Imperador do Império Espanhol (como Carlos I), fato que o tornava:

  • Rei da Espanha (que incluía Castela, Aragão, e a boa parte da região do Mediterrâneo, incluindo o Sul da Itália)
  • Rei das possessões espanholas nas Américas (do Norte, Central e do Sul) e da Ásia
  • Rei dos Países Baixos (Holanda, Bélgica e Franche-Comté)
  • Rei de Nápoles e de boa parte do restante da Itália

Quando seu avô morreu ele também se tornou também:

  • Rei da Áustria e de vários territórios da Europa Oriental (Leste Europeu)

Carlos V foi, durante cerca de vinte e cinco anos, ocupante do trone de três das principais dinastias europeias: as casas de Valois-Borgonha, Trastámara e Hapsburgo. Ele chegou perto de ser um Monarca Europeu Universal. Mas seus domínios se estenderam, territorialmente, além da Europa, alcançando cerca de quatrocentos milhões de quilômetros quadrados, sendo esse o “primeiro império no qual o Sol nunca se põe”. Carlos V continuou a ser responsável por esses domínios enquanto era Imperador do Sacro Império Romano, embora fosse ajudado em suas funções por seu fiel e prestimoso irmão, Fernando (que veio a sucedê-lo, quando ele abdicou, como Fernando I).

Eis o que diz o historiador Carlos Eire acerca de Carlos V:

“Combinando as possessões ligadas à Casa de Borgonha, herdadas de seu pai (e de sua avó paterna), com as possessões espanholas herdadas de sua mãe (e de seus avós maternos, Carlos V herdou os Países Baixos [Holanda, Bélgica, Luxemburgo], Borgonha, Alsacia, Castela, Aragão, Nápoles, Sicília, Sardinha, as Ilhas Baleáricas, as Ilhas Canárias, os territórios cada vez maiores que a Espanha possuía ou reivindicava nas Américas. Como descendente de Eleanor de Portugal [sua bisavó por parte de seu avô paterno], ele também estava relacionada com a Dinastia Avis daquele reino. Como se tudo isso não fosse o bastante, em Janeiro de 1519, com a morte de seu avô paterno [Maximiliano I] …, Carlos V também adquiriu todas as vastas possessões na Áustria e na Europa Central [pertencentes aos Hapsburgos] e se tornou, instantaneamente, o principal candidato ao trono do Sacro Império Romano [que, de fato, veio a ocupar]. Carlos V, assim, passou a governar, pelo menos nominalmente, mais territórios do que qualquer monarca na história humana, até aquele momento, em especial se levados em consideração as possessões espanholas de além mar.” [13] .

Eis o que diz o historiador Mark Greengrass acerca de Carlos V:

“Carlos V ganhou o grande prêmio. Quando chegou aos vinte e cinco anos, ele tinha direito a se considerar herdeiro de: setenta e dois títulos dinásticos diferentes, vinte e sete reinos, treze ducados, vinte e dois condados, e outros títulos senhoriais que se espalhavam do Mediterrâneo ao Báltico e se estendiam sobre o Novo Mundo. Isto significava que algo que se aproximava de 2,8 milhões de pessoas deviam a ele algum tipo de lealdade — ou seja, não menos do que 40% dos europeus ocidentais. Seu chanceler, Mercurino Gattinara, dizia a ele: ‘Deus foi muito misericordioso para contigo. Ele te elevou acima de todos os reis e príncipes da Cristandade de modo a alcançares um poder que nenhum outro soberano alcançou desde teu antepassado Charlemagne. Ele te colocou na trilha de uma monarquia global, que possa unir toda a Cristandade debaixo de um só pastor” . [14]

Creio que fica bem comprovado que o Sacro Império Romano tenha sido realmente um Império, não só no seu início, como no meio, e no fim. Embora ele tenha mudado de nome algumas vezes, só terminou, como Império Austro-Húngaro, com sede em Viena, ao final da Primeira Guerra Mundial [15].

NOTAS

[1] Essa história é muito bem (e sucintamente) contada no artigo “Papal States”, na Wikipedia US, em https://en.wikipedia.org/wiki/Papal_States.

[2] Esses Povos Germânicos eram, antigamente, chamados simplesmente de “Os Bárbaros”, e incluíam os Francos, os Hunos, os Godos, Ostrogodos, Visigodos, etc. A figura (histórica) de Átila, o Rei dos Hunos, e a figura (provavelmente fictícia) de Conan, o Bárbaro, estão ligadas a eles. Embora fossem chamados de “Bárbaros”, numa época menos politicamente correta, o termo se refere simplesmente aos povos que não eram parte do Império Romano e não reflete necessariamente seus costumes. Uns pelos outros, os Romanos também eram bastante violentos em suas práticas de guerra. Na realidade, os Povos Germânicos eram, em sua maioria, cristãos, embora não na variante ortodoxa da Igreja Cristã Ocidental de então (com sede em Roma). Eles eram cristãos arianos que foram considerados hereges pelo Concílio de Niceia (325). Os cristãos ditos ortodoxos tiveram muita dificuldade para abandonar suas crenças arianas.

[3] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Franks.

[4] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Francia.

[5] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Clovis_I. Clóvis I era, originalmente, cristão ariano (e, portanto, considerado herege pelos cristãos que se consideravam ortodoxos). Em 496 Clóvis se converteu à variante ortodoxa do Cristianismo por influência (talvez mais do que isso) de sua mulher Clotilde, que era ortodoxa, tendo trazido sua ortodoxia de sua terra de origem, a Inglaterra (Anglia). Por causa de sua ação, Clotilde é considerada uma santa tanto pela Igreja Cristã Ocidental, Latina e Romana, como pela Igreja Cristã Oriental, Grega e Bizantina (que, depois da queda de Constantinopla, acabou tendo sua sede principal na Rússia). Clóvis, porém só foi batizado na sua nova fé no Dia de Natal de 508, quando sua morte já se aproximava (uma prática comum entre os cristãos de antigamente, que achavam que o batismo remove os pecados e, por isso, preferiam posterga-lo para tão próximo da morte quanto possível, para não acumular mais muitos pecados até a “chegada ao Paraíso”. Seu batismo levou à conversão generalizada também dos seus súditos entre os Francos, promovendo a unificação religiosa (em termos) da população que habitava as regiões que hoje são a França, a Bélgica e a Alemanha.

[6] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Pepin_of_Herstal.

[7] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Martel.

[8] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Pepin_the_Short. Pepino, O Jovem, era também conhecido como Pepino, o Pequeno (Short).

[9] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Charlemagne. Carlos Magno está enterrado em Aachen, na Alemanha (hoje fica quase na confluência de três países: Alemanha, Holanda e Bélgica) cidade que ele escolheu para ser a capital de seu Império, em um sarcófago de ouro, num espaço, no altar, chamado de Santuário de Karl (Karlschrein), permanentemente disposto na magnífica Catedral da cidade (Aachner Dom), uma das mais lindas do mundo. Os alemães o chamam de Karl der Große. Vide, na Wikipedia US, os seguintes artigos: https://en.wikipedia.org/wiki/Karlsschrein (para o caixão) e https://en.wikipedia.org/wiki/Aachen_Cathedral (para a Catedral). Do lado oposto do altar, parte de cima, bem no centro, com vista privilegiada do altar e do “Karlschrein”, está, ainda hoje, o trono do Imperador (“Königsthron”). Compare-se, na Wikipedia DE, este artigo, que contém uma bela foto do trono de Carlos V: https://de.wikipedia.org/wiki/Aachener_Königsthron]. Se pudessem mudar, os alemães, ou, mais provavelmente, os habitantes de Aachen, prefeririam chamar Karl der Große de  Karl der Größte – Carlos, O Maior. Vide, ainda na Wikipedia DEhttps://de.wikipedia.org/wiki/Karl_der_Große].

[10] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Holy_Roman_Empire. O Sacro Império Romano durou de 800 até o final da Primeira Guerra Mundial — ou seja, 1.118 anos, mais de um milênio.  o Império Romano Clássico durou, de certa forma, embora não intato, 1.480 anos, quase um milênio e meio. Hitler considerava o Império Romano Clássico o “Primeiro Reich” e o Sacro Império Romano, o “Segundo Reich”. Ele que o seu Império, que ele considerava o “Terceiro Reich”, viesse a durar também mais de mil anos. Não chegou a durar sete anos.

[11] Vide na Wikipedia US https://en.wikipedia.org/wiki/Holy_Roman_Empire e https://en.wikipedia.org/wiki/Otto_I,_Holy_Roman_Emperor. Há quem diga, como se pode constatar no artigo sobre o Sacro Império Romano referido nesta nota, que o Sacro Império Romano, que quem diz isso prefere chamar de Sacro Império Germânico-Romano, teria se iniciado em 962, e não no ano de 800. Essa é uma brincadeira de mau gosto. O Sacro Império Romano foi criado, sem dúvida, em 800, por Charlemagne. De 800 até 962 ele foi governado por imperadores de origem franca, que eram germânicos, é preciso enfatizar isso. A partir de 962 passou a ser governado por imperadores de origem “alemânica”, vamos dizer assim, que também eram germânicos. É uma brincadeira mudar o nome do império para “Germânico-Romano” e pretender que ele teve início apenas em 962.

[12] Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Charles_V,_Holy_Roman_Emperor na Wikipedia US. Vide, aqui neste blog (Reformation Space), o meu artigo “Lutero, Carlos V e o Contexto do Sacro Império Romano”.

[13] Reformations: The Early Modern World, 1450-1650 (Yale University Press, New Haven, 2016), p.166. Conforme assinalado em outro artigo deste blog (Reformation Space), “Reformar a Igreja ou Criar uma Nova“, Carlos Eire é uma pessoa curiosa. “Riggs Professor of Religious Studies” na Universidade de Yale, uma das mais conceituadas dos Estados Unidos, foi nascido em Cuba, no ano de 1950, foi uma das crianças envolvidas, em 1961, num translado promovido pelos Estados Unidos que removeu de Cuba cerca de 14.000 crianças, levando-as, sem seus pais, para os Estados Unidos, na chamada Operação Peter Pan. Carlos Eire nunca mais viu seu pai, embora tenha posteriormente reencontrado sua mãe, que conseguiu fugir para os Estados Unidos. [Vide https://en.wikipedia.org/wiki/Carlos_Eire e https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Peter_Pan, na Wikipedia US].

[14] Christendom Destroyed: Europe, 1517-1648 (Viking, New York, 2014), p.13.

[15] Seu último Imperador foi Franz Joseph, e sua última Imperatriz, a linda e trágica Elizabeth da Bavária – tornada mundialmente famosa com a trilogia de filmes da série “Sissi”, nos quais foi magnificamente representada pela também linda e também trágica Romy Schneider: Sissi, Sissi a Imperatriz, e Sissi e seu Destino. Sissi foi assassinada, de todos os lugares do mundo, na pacífica Genebra, por um anarquista italiano.

Em Salto, 31 de Maio de 2017.

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