O Antissemitismo de Lutero (Lyndal Roper)

Este é um artigo preliminar — que, no devido tempo, será complementado com uma análise mais extensa e profunda.

Lutero faz observações antissemitas em vários lugares em sua obra, e as observações desse naipe estão presentes em quase todos os momentos de sua vida. Ou seja: não foram feitas em um momento e depois pararam. Nem começaram apenas no final de sua vida, quando ele se tornou um sujeito meio amargo.

A única coisa que pode ser dita para até certo ponto desculpa-lo é que ele viveu em uma época diferente da nossa, em que, entre os cristãos, que acreditavam que os judeus foram os principais responsáveis pela morte de Jesus, não era considerado impróprio ser contra os judeus.

Além disso, Lutero (diferentemente de Erasmo, por exemplo, também cristão, mas um humanista de alta estirpe) era meio destemperado verbalmente, fazia piadas de mau gosto nos momentos mais impróprios (como dizer publicamente a um amigo cuja mulher rica havia morrido que não sabia se lhe devia dar condolências ou parabéns), etc. Por fim, tenho um livro que mostra que até mesmo dentre “les philosophes” do Iluminismo, em pleno século 18, atitude semelhante ainda imperava, em pleno século 18. Não há muito mais o que dizer.

Em 1970-1971 escrevi um trabalho de curso, quando fazia o doutorado em Pittsburgh, com o título “Was Voltaire an Anti-Semite?” Tentei, tanto quanto possível, contextualizar as observações de Voltaire sobre os judeus para, de certo modo, mostrar que, no contexto do século 18, Voltaire nem de longe era uma ponto fora da curva. Algo semelhante pode ser feito com Lutero, mas é doloroso fazer isso. Tanto Lutero como Voltaire eram destemperados verbalmente, e extremamente hábeis em seus insultos (também contra o Papa e a Igreja, no caso de Lutero, e contra a Igreja, “l’infâme“, no caso de Voltaire), o que torna suas observações ainda mais difíceis de contornar.

Há observações de Lutero também muito deselegantes acerca do sexo feminino. É uma pena, mas não há muito o que se possa fazer.

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O capítulo 18 (o penúltimo) do magnífico livro de Lyndal Roper, Professora de História da Universidade de Oxford, com o título Martin Luther: Renegade and Prophet, trata dos “ódios” de Lutero. O título do capítulo é “Hatreds“. O livro é uma biografia “psicanalítica” de Lutero. Diz ela, à p.378:

“Luther’s vicious anti-Semitism has been one of the most fraught subjects in the history of Lutheranism, because it has been difficult for scholars after the Holocaust to recognize and accept its nature and extent. Luther was not always so hostile. In 1523 he had published That Jesus Christ was born a Jew a remarkable pamphlet that recognized that Christians ‘have dealt with the Jews as if they were dogs rather than human beings; they have done little else than deride them and seize their property’. A remarkably tolerant piece by the standards of the time, it has often been regarded as proof that the young Luther was not anti-semitic: his anti-Semitism, so goes the argument, was the product of his later, embittered years when he realized that the Jews would never convert to Christianity — although there is little evidence that Luther actively tried to convert Jews. However, the last passage of the tract of 1523 made it clear that toleration of the Jews was dependent ultimately on the dissolution of Jewry: ‘If the Jews should take offense because we confess our Jesus to be a man, and yet true God, we will deal forcefully with that from Scripture in due time. But this is too harsh for a beginning. Let them first be suckled with milk, and begin by recognizing this man Jesus as the true Messiah; after that they may drink wine, and learn also that he is true God’. Anti-Semitism was not just a product of his later years, but in fact appears time and again.” (p.378).

Em Português, em tradução minha:

“O antissemitismo maldoso de Lutero tem sido um dos temas mais controvertidos da história do Luteranismo, porque, para pesquisadores que vivem depois do Holocausto, é difícil reconhecer e aceitar a frequência e a natureza das observações que o reformador fez. É possível mostrar que Lutero não foi sempre tão hostil aos judeus. Em 1523 ele publicou um notável panfleto, com o título Que Jesus Cristo Nasceu um Judeu, no qual ele reconheceu que os Cristãos ‘têm tratado os Judeus como se eles fossem cães e não seres humanos: têm feito pouco além de ridiculariza-los e de tomar suas propriedades.’ A observação parece surpreendentemente tolerante, se julgada pelos padrões da época. Muitos defensores de Lutero a têm usado como evidência de que o Lutero jovem não era antissemita: seu antissemitismo, assim argumentam, teria sido o produto de uma época em que Lutero, mais velho e amargurado com problemas diversos, chegou à conclusão de que os Judeus nunca se converteriam ao Cristianismo — embora haja escassa evidência de que o próprio Lutero jamais tenha tentado convertê-los. Contudo, a última passagem do panfleto de 1523 deixa claro que a tolerância que Lutero estava disposto a ter para com os Judeus era dependente, em última instância, do desaparecimento de sua natureza judaica [mediante a conversão para o Cristianismo]: ‘Se os Judeus se ofendem porque confessamos que Jesus era homem, e, no entanto, também era Deus verdadeiro, lidaremos com rigor com eles, com base na Escritura — mas no devido momento. No início, esse é um tema muito indigesto para eles. Devemos começar dando-lhes, como se fosse leite, que é de fácil digestão, afirmando, para eles, que Jesus, o homem, era o Messias verdadeiro. Depois de eles se acostumarem com esse alimento, nós lhes serviremos vinho, ao lhes informar que o Messias verdadeiro também é Deus verdadeiro.’ O antissemitismo de Lutero não era uma característica de seus anos maduros: ele de fato transparece o tempo todo.” (p.378).

É uma pena ter de reconhecer isso que é reconhecido ao final da passagem citada. Mas é preciso também não ser anacrônico e julgar alguém que nasceu no século 15 e viveu no século 16 pelos critérios morais dos séculos 20 e 21.

Voltarei ao assunto.

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Estou voltando ao assunto em 12 de Junho de 2017 para registrar que encontrei uma discussão extremamente interessante da relação de Lutero com o Judaísmo e com os Judeus em Scott H. Hendrix, Martin Luther: Visionary Reformer (Yale University Press, New Haven, 2015, 2016), pp.264-266 da edição em paperback. Fica o registro. Oportunamente apresentarei em detalhe o que diz Hendrix.

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Mais uma nota acrescentada posteriormente, esta em 4 de Julho de 2017 (dia do aniversário da Independência Americana).

Em sua famosa biografia de Lutero, Luther: Mensch zwischen Gott und Teufel (Luther: Man Between God and the Devil, em Inglês), de 1982, livro que Lyndal Roper (citada acima) considera a melhor biografia de Lutero no mercado, Heiko A. Oberman informa, no Prefácio da Primeira Edição, que terminou de escrever o livro na Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel. E acrescenta — numa referência sutil mas cortante ao antissemitismo de Lutero:

“Israel stößt den Erben Luthers auf den fremden, befremdlichen und bisweilen entsetzlichen Reformator. Eben dort kann Lutherliebe sich nicht zu jener Lutherverehrung versteigen, die er selbst als Schwärmerei bezeichnet hätte.”

Em Português, em tradução minha:

“Israel serve para realçar para os seguidores [herdeiros] de Lutero o lado estranho, alienante e até mesmo repugnante do reformador. Israel é o local ideal para impedir que o amor que muitos têm por Lutero se intensifique e transforme numa adoração que o próprio Lutero rejeitaria como fanatismo (Schwärmerei).”

Schwärmer” era o principal adjetivo que Lutero pespegava em adversários que ele considerava fanáticos, exageradamente emotivos, aquilo que chamamos hoje de carismáticos exagerados.

Em Salto, 2 de Junho de 2017; revisado em São Paulo, 12 de Junho de 2017; revisado em Salto, 4 de Julho de 2017

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