As Dificuldades dos Luteranos de 1521 a 1555

Depois da Dieta de Worms de 1521, da reclusão no Castelo de Wartburgo, durante parte de 1521 e 1522, e os problemas em Wittenberg em 1522, ao chegar o ano de 1525 Lutero parecia estar bem… A Bula do Papa que o condenava — Exsurge Domine, de 15 de Junho de 1520 (Leão X) — e a Bula do Papa que o Excomungava — Decet Romanum Pontificem, de 3 de Janeiro de 1521 (Leão X) — bem como a interdição e o banimento do Imperador ao final da Dieta de Worms — neste caso representados pela decisão do Imperador Carlos V no dia 19 de Abril de 1521 — pareciam destinados ao esquecimento, pelo menos na Saxônia. No Castelo de Wartburgo, onde ficou escondido pelo Príncipe Frederico III, “O Sábio”, da Saxônia, ele havia traduzido o Novo Testamento do Grego para o Alemão (publicado em Setembro de 1522). Os conflitos que aconteceram em Wittenberg durante a sua ausência ele fora capaz de controlar, quando voltou para lá, em Março de 1522, desafiando as Bulas Papais e a decisão da Dieta de Worms — sempre sob a proteção de Frederico, justamente apelidado de “O Sábio”. A Dieta de Nurenberg, em Março de 1523, decidiu postergar qualquer outra decisão contra ele e qualquer ação com base em decisões tomadas anteriormente. Em Setembro de 1523 um novo papa, Clemente VII, foi escolhido, em substituição a Leão X, que tanto perseguiu Lutero.

Assim, Lutero parecia bem ao chegar o ano de 1525. Casou-se com Katharine von Bora no dia 13 de Junho (apropriadamente, Dia de Santo Antonio). Teve tempo para escrever uma crítica a Erasmo, acerca da questão do livre arbítrio, publicando o seu De Servo Arbítrio (Da Servitude da Vontade). O tom do trabalho, porém, danificou permanentemente seu relacionamento não só com Erasmo, mas também com os demais humanistas da Renascença, que lhe eram simpáticos.

Sua reputação também foi avariada em alguns setores da Europa pela sua atuação junto dos governantes durante a Revolta dos Camponeses, quando insistiu com os líderes políticos para que combatessem, com a maior violência, sempre que necessário, os camponeses em revolta.

E aí, nesses dois acontecimentos, a desagradável briga com Erasmo e a sua postura em relação à Revolta dos Camponeses, talvez, tenham começado os problemas de Lutero. Ele começou a conquistar inimigos demais. Como se não bastasse ter a Igreja Católica, com o Papa à frente, como inimiga, ele começou a alienar aqueles que, até ali, haviam sido seus amigos. Os primeiros amigos seus foram os humanistas renascentistas, liderados pelo grande, brilhante, cordial e simpaticíssimo Erasmo de Roterdã.

Em 1526 a primeira Dieta de Espira (Speyer) se reunir para decidir, entre outras coisas, o que fazer acerca das Bulas Papais e da decisão da Dieta de Worms. Como bons políticos, os dietantes resolveram deixar tudo como estava. A ameaça dos turcos, que derrotaram o rei da Hungria, Luís II, era um problema maior do que Lutero e os luteranos. A decisão da Dieta é uma peça fantástica de realismo político. A decisão que deveriam tomar ficaria mais bem se tomada por um Concílio — ou por uma outra dieta no futuro… Enquanto isso, dentro do Sacro Império Romano, ameaçado pelos turcos, todos devem procurar “viver, governar e conduzir-se conforme sua esperança e confiança em responder a Deus e a sua majestade imperial”. Beleza pura…  (Vide Williston Walker, História da Igreja Cristã, 3a. edição, p. 514).

Três anos depois, em 1529, a situação político-militar tendo melhorado, Carlos V resolve convocar outra dieta — também para Espira (Speyer). Os príncipes luteranos, meio tranquilos, achando que tudo iria caminhar como antes, foram para a dieta meio despreparados — e levaram uma sova. Os católicos, que estavam em maioria, decidiram que não poderia haver mais nenhuma mudança eclesiástica (isto é, católico virando protestante, era o que queriam dizer). Além disso, declararam, os majoritários católicos, que o culto romano ficava legalizado e, portanto, era permitido em todos os lugares do Império, até mesmo em regiões governadas por príncipes (ou equivalente) luteranos. Por fim, restituíram às autoridades católicas e às ordens monásticas os bens (propriedades) que lhes haviam sido confiscados e explicitaram que nada as impedia de desfrutarem plenamente de seus direitos de propriedade e de sua liberdade de culto. Enfim: as igrejas territoriais luteranas, criadas com base no princípio de que, dentro de um território, todo mundo seguia a religião do governante (cujos regio, ejus religio), estavam abolidas. (Cf. Walker, op.cit., p. 516).

Aos protestantes só coube o direito de espernear (jus sperniandi, como se diz). Lavraram um protesto formal — chamado, apropriadamente, de Protestatio, no dia 19 de abril de 1529. Por causa desse protestatio passaram a ser conhecidos como… “os protestantes“… Está aí a origem do nosso nome, de que alguns de nós, como eu, tanto nos orgulhamos. (Vide Walker, op.cit., loc.cit.)

Numa situação assim, é preciso não cultivar divisões, não é mesmo?

Mas não foi isso que Lutero fez. Philip de Hesse, o Eleitor do Palatinado, luterano, preocupado com a divisão que estava havendo entre os luteranos e os reformados de Zurique, em especial sobre a questão da Eucaristia, na Suíça, liderados por Ulrico Zuínglio (Ulrich Zwingli), convocou um encontro, em Marburgo, no mesmo ano de 1529, para tentar aplainar as diferenças. Participaram Lutero e Felipe Melanchthon pelos Luteranos, Zuínglio por Zurique, mais Martinho (Martin) Bucer, representando Estrasburgo, e João (Johannes) Oecomlampádio, representando Basiléia. Lutero se recusou a fazer qualquer acordo. Ele estava certo, porque a Bíblia diz “este pão É o meu corpo, este vinho É o meu sangue”, e não diz que o pão e o vinho simplesmente REPRESENTAM ou SIMBOLIZAM o corpo e o sangue de Cristo, como pretendia Zuínglio. Fim de conversa.

O Imperador, impaciente, convocou uma nova dieta para Augusburgo, em 1530. E pediu a todos, protestantes (agora se pode chama-los assim) e católicos, para apresentarem propostas de “documentos de união”, de textos que pudesse conquistar a aprovação tanto de uns como de outros e, assim, terminar a Bíblia.

Melanchthon produziu o texto que, depois de concluída a Dieta, veio a ser chamado de Confissão de Augsburgo. Zuínglio, que apesar de não ser alemão, pois era suíço, mas falava alemão, também apresentou um documento meio fraquinho, sob o título Ratio Fidei (Razão da Fé). E quatro cidades importantes, lideradas por Estrasburgo (Bucer), todas simpáticas a Zuínglio, apresentaram um texto que ficou conhecido como a Confissão Tetrapolitana. Novamente, luteranos e zuinglianos não conseguiram chegar a um texto comum. Os católicos, por sua vez, não apresentaram nada mas rejeitaram as três propostas. O Imperador, meio desesperado, chegou a uma brilhante conclusão: nomeou uma comissão. Apesar do espírito cordato de Melanchthon, os luteranos, influenciados pela inflexibilidade de Lutero, reclamaram de que não se havia dado suficiente atenção para a Confissão de Augsburgo. Por fim, tomou-se a decisão que um concílio, a ser convocado para dentro de um ano, resolveria a questão. Melanchthon aproveitou e escreveu uma Apologia da Confissão de Fé de Augsburgo, que é um texto bem mais interessante do que a própria confissão original. (Vide Walker, op.cit., pp. 534-536; há vários artigos neste blog sobre a Dieta de Augsburgo de 1530 e a Confissão de  Augsburgo).

Os luteranos, depois de duas derrotas e dois protestos, aprenderam a lição. Criaram, em 1531, uma liga de príncipes protestantes dedicada a proteger as regiões protestantes, a chamada Liga de Schmalkalden (Cp. Walker, op.cit., p.536).

Diante disso, o Papa, que temia um Concílio Geral, e o Imperador, que estava a fim de ter sossego, decidiram entrar em clima de pacificação. A morte de Zuínglio (no campo de batalha), em 1531, tornou mais fácil que seus aliados se aproximassem dos luteranos. Não se pode desconsiderar o medo dos radicais que haviam provocado a Guerra dos Camponeses. Luteranos e católicos se uniriam a qualquer tempo para conter os radicais. Além de tudo o mais, os turcos muçulmanos haviam chegado a Viena. Diante de tudo isso, o Imperador e a Liga de Schmalkalden, naturalmente, fizeram um acordo, em 1532: a chamada Paz de Nurenberg. Por esse acordo, ficariam em paz, católicos e protestantes, até um Concílio Geral ou uma próxima Dieta. (De novo?). (Vide Walker, op.cit., p.537).

De 1532 até 1555, quando foi convocada a Dieta seguinte, também em Augsburgo, tudo ficou em paz relativa dentro do Império. Lutero morreu em 1546 e Carlos V começou a abdicar da direção das diferentes partes dos seus impérios em 1555 (terminou no ano seguinte e morreu em 1558). Os dois grandes atores do drama vivido desde 1521 (Worms), estavam fora de jogo em 1555. Um, Lutero, realmente fora do jogo, morto. O outro, Carlos V, abrindo mão de seu império, em favor de seu irmão, e prestes a morrer.

Na dieta de Augsburgo, em 1555, celebrou-se a chamada Paz de Augusburgo, que novamente consagrou a solução que ficou definitiva no Sacro Império Romano: católicos e alemães teriam direitos iguais e viveriam em paz no Império, cada um em seu território, a religião do território sendo determinada pela religião do seu governante: cujus regio, ejus religio: qual for a religião do rei, tal será a religião (desde que, naturalmente, elas sejam as religiões católicas e luteranas. Zuinglianos, Calvinistas, e, naturalmente, os detestados Anabatistas, não estão cobertos pelo acordo.

Mas, a essas alturas, os Calvinistas nem precisavam fazer acordo. A reforma deles, iniciada em Genebra, que é hoje na Suíça, mas que, na época, era uma cidade livre (uma república), já havia se tornado internacional, enquanto luteranos e católicos brigavam entre si.

Em São Paulo, 27 de Agosto de 2014, revisto também em São Paulo, 3 de Junho de 2017.

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