Lutero e a Bíblia: Sola Scriptura, Mas Não Tota Scriptura

[Para a expressão “Tota Scriptura”, caso você tenha dúvida sobre o seu sentido ou a sua razão de ser no título deste artigo,
vide a seguinte nota [*], ao final, antes das notas numeradas.]

Em muitos sentidos Lutero foi um revolucionário (embora em muitos outros tenha sido profundamente conservador). Não é correto chamá-lo de “revolucionário conservador”, porque essa expressão é autocontraditória. Ele foi revolucionário em alguns aspectos, ou em alguns momentos de sua vida, e conservador em outros aspectos, ou em momentos distintos.

Do lado revolucionário, seu princípio do Sola Scriptura foi uma sacada de gênio. Esse princípio lhe permitiu livrar-se de vários argumentos contrários às suas teses simplesmente alegando que se baseavam em premissas que ele não conseguia encontrar nas Escrituras — ou porque estavam alicerçadas apenas na tradição da Igreja, ou apenas na experiência pessoal do argumentante, ou somente em alegadas revelações feitas diretamente à pessoa que o contradizia, ou, ainda, em considerações justificáveis puramente pela razão humana, sem embasamento bíblico (como frequentemente o faziam os teólogos escolásticos, inspirados em Tomás de Aquino, o mais racionalista de todos os teólogos).

Mas diferentemente do que pensam muitos protestantes, Lutero não foi um “biblicista”, no sentido em que os Fundamentalistas são, que simplesmente dizia, à la Billy Graham, “the Bible says”, ou “isso aí não está na Bíblia”, punto y basta… O fato de uma afirmação, favorável ou contrária a ele, estar na Bíblia não representava nada, por si só, para Lutero… Pois ele admitia que Bíblia contém erros, e que há livros inteiros que estão na Bíblia mas não deveriam estar… A Epístola de Tiago, só para dar apenas um exemplo (por enquanto).

A finalidade principal deste artigo é esclarecer essas afirmações, que podem parecer surpreendentes, levando algumas pessoas a admitir que não sabiam que Lutero tinha um lado assim tão liberal…

1. O Sola Scriptura

No meu artigo “As Principais Teses de Lutero”, neste blog Reformation Space, afirmei que, no final da Idade Média, começo da Idade Pré-Moderna, quando Lutero estava se preparando para ser teólogo, era matéria pacífica que o Pensamento Teológico Cristão ou a Teologia Cristã dependia de quatro fontes básicas:

  • As Escrituras Sagradas
  • A Tradição da Igreja
  • A Experiência Humana
  • A Razão Humana

Duas fontes do lado “de fora” da pessoa, duas do lado “de dentro”…

Admitia-se que essas quatro fontes não tinham valor igual e operavam de forma diferente, e se reconhecia, sem dúvida alguma, que o peso das Escrituras Sagradas e da Tradição da Igreja é maior do que o das outras duas fontes.

Um teólogo católico, ou mesmo o Papa, se indagado de forma objetiva, admitiria que as Escrituras Sagradas têm primazia. No entanto, nunca se esqueceriam de chamar a atenção do interlocutor para o fato de que foi a própria Igreja, através de suas lideranças eclesiásticas e teológicas, atuando através de seus Concílios, ou através de pronunciamentos Ex Cathedra do Sumo Pontífice, etc., que determinou quais livros eram parte integrante das Escrituras Sagradas para os cristãos e quais livros ficariam de fora… Esta é a questão do cânon (o conteúdo da Bíblia). Ainda mais: que era a Igreja quem decidia, em última instância, qual a interpretação correta das Escrituras… Esta é a questão da hermenêutica (a interpretação da Bíblia). Vistas as questões desse ângulo, parece que a fonte “A Tradição da Igreja” tinha, na prática, mais peso para a Igreja Católica do que a fonte “Escrituras Sagradas”…

Mas as questões do cânon e da hermenêutica têm um outro lado, podem ser vistas de outro ângulo — e foi desse ângulo que Lutero as encarou. A Igreja é composta de homens, não de deuses. E os homens da Igreja, nem mesmo o Papa e os participantes nos concílios, nunca deixaram de ser homens por serem da Igreja, e, por conseguinte, eram falíveis quando tomaram suas decisões. Sendo falíveis, eles podem ter cometido algum erro em suas decisões acerca do cânon… Sendo falíveis, as interpretações das Escrituras que eles sacramentaram podem estar erradas… Foi por isso que Lutero disse, de forma contundente, na Dieta de Worms, que “está mais do que provado que eles [Papas e Concílios] frequentemente erram e se contradizem”… 

Mas e a Bíblia? É inerrante e infalível? Toda ela? Toda ela é igualmente verdadeira e válida? Toda ela tem o mesmo valor? As regrinhas de purificação de Levíticos, as genealogias do Velho Testamento, as visões do Apocalipse, essas coisas têm o mesmo valor que a Carta de São Paulo aos Romanos?

No caso do Novo Testamento, em especial, foram selecionados vinte e sete livros para integrar a Bíblia dos cristãos. Dizem os especialistas que estudam livros que eram lidos, aceitos, admirados, e seguidos na Igreja dos três primeiros séculos, mas acabaram ficando de fora do cânon cristão (tornando-se o que hoje se chama de apócrifos), que, para cada livro selecionado, havia mais de um livro e meio que, tendo boas chances de serem selecionados, acabaram, por alguma razão, ficando de fora. A lista dos apócrifos do Novo Testamento tem hoje, na opinião dos melhores especialistas, quarenta e dois livros. A razão dos apócrifos para os canônicos é, portanto, de 1,55 para um (42:27).

Outro fato que precisa ser registrado é que a tese do Sola Scriptura defendida por Lutero é uma tese negativa: ele não aceita nenhuma tese ou doutrina, a menos que ela seja defensável ou justificável, com base nas Escrituras, através de argumentos que convençam a sua razão e satisfaçam a sua consciência. Ele não aceita uma tese ou doutrina simplesmente porque ela está na Bíblia (“the Bible says”…) — que seria uma versão positiva da tese.

Para Lutero, as Escrituras Sagradas passaram a ocupar o lugar que o Papa e o Magisterium ocupavam na Igreja Católica. Reitero, mais uma vez, o que disse no artigo “As Teses Principais de Lutero”:

“Dentro da Igreja Católica, aceitavam-se várias fontes de autoridade, entre elas a Bíblia, mas havia uma forte tendência, em especial na Cúria Romana, a considerar que as outras três fontes deveriam ficar subordinadas à chamada função Magisterium da Igreja, que, em resumo, dizia que a própria igreja, levada em conta a sua Tradição Eclesiástica, é a principal fonte de autoridade, e, dentro da igreja, a hierarquia clerical, da qual o Papa é o Pontífice Máximo”.

Lutero contestava isso: para ele, a única fonte de autoridade são as Escrituras Sagradas (Sola Scriptura) – mas com duas ressalvas:

  • com o cânon definido por ele, e
  • com o texto interpretado por ele.

Ele fazia essas duas ressalvas,  não porque ele pretendesse ocupar a posição de um Papa Protestante, mas porque, na sua forma de entender as coisas, o direito de interpretar a Bíblia cabe a todo e a cada crente, pois cada um tem uma razão e uma consciência e faz parte do “sacerdócio universal dos crentes”. Essa é a “Ideia Perigosa” de Lutero discutida em meu artigo “A ‘Ideia Perigosa’ de Lutero”, também aqui neste blog, escrito com base no livro de Alister E. McGrath (A Revolução Protestante, cujo título original é Christianity’s Dangerous Idea). 

A Razão Humana era considerada uma das fontes da Teologia Cristã pelo menos desde Tomás de Aquino, que escreveu duas Summae: uma Summa, a Theologica, dependia da Escritura (e, naturalmente, da Razão, pois esta era sempre necessária para interpretar a Escritura); outra Summa, a Contra Gentiles, dependia apenas da Razão, sem fazer qualquer apelo à Escritura — esta Summa era destinada a converter infiéis que não aceitavam a Escritura…

Lutero não concordava com o ponto de vista do Doctor Angelicus nesse segundo aspecto. Para ele, a segunda opção não existia: não há Teologia que não seja baseada nas Escrituras. Mas a primeira opção Lutero endossa: A Teologia Cristã depende da Escritura, mas a Razão Humana é necessária para interpretar a Escritura. A questão da Consciência, que Lutero invoca durante a Direta de Worms, entra aqui: se uma tese ou doutrina lhe é proposta com base nas Escrituras, mas ele não está racionalmente convencido de que as Escrituras realmente a fundamentam e justificam, ele não pode aceita-la – porque aceitar uma tese ou doutrina de cuja fundamentação ou justificativa bíblica ele não está racionalmente convencido é violar a sua consciência – algo que, segundo ele disse, “não é certo nem seguro” fazer *.

2. Mas Nem Toda a Escritura . . .

Vários autores têm chamado a atenção para o fato de que Lutero se sentia razoavelmente livre em relação à Bíblia – comportando-se de forma muito diferente da defendida pelos Fundamentalistas do século 19 e 20 (e 21). Isso pode ser mostrado de mais de uma maneira.

A. A Questão do Cânon do Velho e do Novo Testamento

É fato conhecido e notório que Lutero defendeu, no tocante ao cânon do Velho Testamento, que os livros que a Igreja Católica aceitava, porque estavam na Vulgata Latina, que, por sua vez, os adotou a partir da Septuaginta Grega, mas que não faziam parte do cânon das Escrituras Judaicas, não deveriam ser considerados canônicos, embora a Igreja Católica os considerasse canônicos. Lutero enfrentou, portanto, com base em sua razão e sua consciência, a Igreja Católica, também no tocante a essa questão. Esses livros, geralmente chamados de Dêuteros Canônicos ou Apócrifos, não fazem parte da chamada “Bíblia Protestante” porque Lutero tomou uma posição firme em defesa de sua remoção do cânon do Velho Testamento aceito e adotado pela Igreja Católica. E sua posição foi acompanhada pelos demais reformadores.

Eis o que diz Alec Ryrie:

“Precisamos notar como Lutero tomava liberdades com a Bíblia, de uma maneira aparentemente fácil e tranquila, que chocaria muitos Protestantes modernos. Assim, não é surpreendente que tenha jogado fora os livros do Velho Testamento chamados dêutero canônicos ou apócrifos, como Tobias, Eclesiástico, e Macabeus, [etc.] que sobrevivem apenas na Bíblia Grega [e Latina], não na Hebraica. Muitos estudiosos da Bíblia [de hoje] concordam com ele em relação a isso, mas a decisão de Lutero fez com que ele convenientemente se livrasse de algumas passagens teologicamente inconvenientes [para ele] do Velho Testamento [da Igreja Católica]. Mas ele também lidou de uma forma robusta com o restante do Velho Testamento…” [2]

Lutero também tinha sérias dúvidas sobre a canonicidade de alguns dos livros do Novo Testamento – quatro, no total: Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse. Para Lutero, eles ficariam de fora do Novo Testamento que ele estava traduzindo. Embora ele finalmente tenha optado por incluí-los, para não criar ainda mais problemas secundários e focar mais nas questões essenciais, deixou-os no fim de sua tradução do Novo Testamento, para mostrar que os considerava com certo desprezo… [3].

B. A Questão do Conteúdo de Partes do Velho e do Novo Testamento

Quanto ao conteúdo de alguns livros que estavam no Velho Testamento dos Judeus, e que, portanto, Lutero não tinha como jogar fora, eis o que diz Alec Ryrie:

“Ele gostaria de poder se livrar do livro de Ester em sua totalidade. Ele achava que os livros de Reis eram bem mais confiáveis do que os livros de Crônicas, duvidava que grandes pedaços do Velho Testamento tivessem sido escritos pelos autores atribuídos a eles, e considerava que o texto de várias passagens do Velho Testamento havia se corrompido no processo de transmissão através do tempo. Ele acreditava que a maior parte do livro de Jó era ficção pura, e que os profetas de vez em quando cometiam erros em suas predições. E jogou água fria sobre os números fantásticos de algumas narrativas do Velho Testamento” [4].

Quanto ao conteúdo dos livros do Novo Testamento, disse, por exemplo, que a Epístola de Tiago é uma “epístola de palha”, que “deforma a Escritura”, mas, felizmente, “não representa grande coisa”. Disse uma vez a um aluno que, dado o seu conteúdo, “gostaria de jogar o Tiagão [sic] no fogo”. Ele também demonstrava claro favoritismo por alguns livros, em relação aos outros. Nas Epístolas, preferia as de Paulo, e, dentre as cartas de Paulo, Romanos, Gálatas e Efésios. Das Epístolas não-Paulinas, preferia a Primeira de Pedro. Nos Evangelhos, considerava o de João o Evangelho principal, muito preferível aos outros três.

Eis o que diz Diarmaid MacCulloch acerca da postura de Lutero diante dos livros da Bíblia:

“Lutero também não tinha escrúpulos em ordenar, em termos de importância ou valor, diferentes livros ou passagens da Bíblia, dependendo de eles ou elas proclamarem a mensagem que ele havia identificado como o núcleo central de boa-nova bíblica [isto é, do Evangelho]. O Evangelho de São João, as Cartas de Paulo aos Romanos, aos Gálatas, aos Efésios, bem como a Primeira Carta de Pedro, ele considerava os livros centrais do Novo Testamento. No Velho Testamento, os Salmos eram centrais, porque ele acreditava que eles profeticamente falavam de Cristo. A Epístola aos Hebreus fala da fé em termos que ele não considerava adequados. Ele corretamente reconheceu que, devido ao Grego literário bastante refinado usado na epístola, ela não poderia ter sido escrita por seu amado apóstolo Paulo, a despeito do que a maioria absoluta das vozes que integravam a tradição da Igreja dizia… Além da questão linguística, em si, ele considerava as teses do livro confusas. Pior destino estava reservado à Epístola de Tiago, que parecia manter que as boas obras da lei são necessárias para a salvação. Uma ‘epístola de palha’, ele a chamou, com desprezo. O livro de Ester, no Velho Testamento, e por razões semelhantes, também recebeu seu desprezo. O livro de Macabeus ele execrava, deixando-o fora do cânon, pois fornecia à Igreja Católica um dos únicos textos que podiam fundamentar a doutrina do purgatório. Felizmente, para Lutero, Segundo Macabeus pertencia àquele conjunto de livros que muitos comentaristas questionavam que devessem pertencer ao cânon. Lutero afirmou peremptoriamente que não deviam, e nisso ele acabou sendo seguindo pela maioria absoluta dos Reformadores. Em sua edição da Bíblia de 1534 ele traduziu esses livros mas os deixou em uma categoria separada que denominou de ‘Apócrifos’, terminologia que acabou sendo geralmente adotada pelos Protestantes. Anteriormente a Lutero, reajustes de perspectiva como os que ele propôs, só conseguiram entrar na corrente central do pensamento cristão depois de muito discutidos por autoridades da Igreja, como Concílios ou Papas. A máquina papal agora se recusava a ouvir Lutero com seriedade e a chamar um Concílio para discutir suas propostas. Os bispos e abades da Alemanhã também lhe fizeram ouvidos moucos, deixando de escutar a sua voz profética, mormente o arcebispo de sua região, Alberto de Brandenburgo, Arcebispo de Magdeburgo e de Mainz (Mogúncia). Diante disso Lutero resolveu desistir de apelar à Igreja e apelou ao Imperador Carlos V — mas este [em Worms, em 1521, e em Augsburgo, em 1530] também rejeitou suas pretensões. Carlos V estava disposto até mesmo a não fugir do dever de produzir os primeiros mártires protestantes, quando reagiu com a maior severidade contra a pregação dos colegas agostinianos de Lutero que viviam no mosteiro de Antuérpia, nos Países Baixos. Ele mandou destruir totalmente um mosteiro que não tinha ainda dez anos, e dois monges, Hendrik Voes e Johannes van den Eschen, foram queimados como exemplos.”  [5]

A situação estava complicada para Lutero. Só lhe restava agora tentar convencer os príncipes, duques e condes que controlavam as regiões locais da Alemanha e em cujas mãos estava o poder real. Mas ele tinha de ser bastante persuasivo… Era sua última cartada. Se ele falhasse, a Reforma que iniciou terminaria em fracasso.

Em tudo isso, há indicação de que Lutero possuía um critério que lhe permitia escolher o que ele queria, e chamar apenas aquilo que ele queria, não a Bíblia inteira, de Palavra de Deus [6].

C. A Bíblia e a Palavra de Deus

É evidente, com base em exemplos que se amontoam, que a liberdade que Lutero tomava com a Bíblia, privilegiando ou favorecendo alguns livros, em detrimento dos outros, e a facilidade com que deixava, ou se dispunha a deixar, de fora da Bíblia, tanto no Velho como no Novo Testamento, livros considerados canônicos pela Igreja, não é apenas “aparente”, como disse Alec Ryrie na primeira passagem dele citada neste artigo. Ela resulta do fato de que, para ele, a Bíblia ou a Escritura é uma coisa, e a Palavra de Deus é outra, e que as duas coisas não se identificam necessariamente e em todos os casos [7]. Disse ele (Lutero), em um de seus escritos, de 1530 (atenção à data), aos seus leitores:

“Busquem na Bíblia, e aproveitem, a parte essencial da doutrina cristã, onde quer que ela esteja. E o coração da doutrina cristã é este: que, sem qualquer mérito nosso, como um dom da graça pura de Deus em Cristo, obtemos justificação, vida, salvação[8].

Esta é a essência da doutrina cristã, esta é a mensagem que merece ser considerada a Palavra de Deus. A razão por que Lutero pode, com tranquilidade, dizer que a Epístola de Tiago é uma “epístola de palha”, que ela “deforma a Escritura”, mas, que, felizmente, “não representa grande coisa”, é que “ela não contém sequer uma sílaba sobre Cristo” [9] — ou seja, não contém a Palavra de Deus (para dizer francamente o que ele pensou, mas não disse com todas as letras).

Mas Lutero vai além. Em sua tradução da Bíblia, tomou ampla liberdade com sua escolha de termos para traduzir os originais, em alguns casos até acrescentando palavras que não se encontravam no original. Eis o que diz Diarmaid MacCulloch:

“Que mensagem deve ele pregar, enquanto profeta? Ele havia encontrado algumas verdades centrais bastante específicas na Bíblia no processo de lidar com seus tormentos espirituais. Com seu forte sentido de paradoxo ele estabeleceu uma profunda separação entre a Lei e o Evangelho, entre a salvação pelas obras e a salvação apenas pela fé na graça divina. Jesus Cristo veio para cumprir a Lei do Velho Testamento, libertando a humanidade (pelo menos a parte eleita) da necessidade de cumpri-la para alcançar a salvação. Qualquer coisa que ficar no caminho dessa mensagem evangélica deve ser colocado de lado — mesmo que esteja contido nas próprias Escrituras. Sua tradução da Bíblia no Castelo de Wartburgo foi uma expressão de uma relação de amor que ele tinha com a Palavra de Deus, fato que, para ele, significava que ele podia, com ela, ser muito íntimo, ou até bastante rude, conforme exigissem as circunstâncias, como acontece entre amigos chegados [e entre amantes]. Ele tratava o texto original de uma forma surpreendente, que podemos designar de proprietária. Onde, por exemplo, ele encontrava o equivalente à palavra ‘vida’ no original Grego ou Hebraico, ele a estendia, de modo a fazer com que em Alemão a palavra se tornasse uma expressão, ‘vida eterna’. ‘Misericórdia’ ele traduzia como ‘graça’, ‘o libertador de Israel’ como ‘o Salvador’. Quando ele traduziu uma passagem essencial de Romanos 3, ‘afirmamos que o homem é justificado, sem as obras da lei, pela fé’, ele acrescentou a palavra ‘somente’ antes de ‘pela fé'” [10].

Foi por isso que Lutero, em Worms, disse que deveria “[s]e submeter à [sua] consciência e ficar fiel à Palavra de Deus” – não fiel ao texto da Bíblia ou da Escritura. O que conta é “o coração”, “o núcleo essencial” da mensagem do Evangelho. Esse coração ou essa essência estão na Bíblia ou Escritura, sem dúvida – mas nem tudo na Bíblia ou Escritura contém essa mensagem. Eis como Alec Ryrie resume a questão:

“Lutero usou a Bíblia para lutar suas batalhas, e fez isso com gosto, mas antes de ser um lutador ele era um amante apaixonado. A Bíblia lhe revelou o seu amor, e, por isso, ele amava a Bíblia como se ela fosse uma carta de amor. Ele a interpretava e entendia através do prisma desse amor. Tudo e qualquer coisa nela que não pudesse ser lido do prisma desse amor deixava de ter importância para ele. A Bíblia, para ele, não era para ser analisada como um texto que é destrinchado por um estudioso ou pesquisador, mas era, isto sim, para ser encarada como uma obra de arte, que é contemplada e desfrutada pela beleza da mensagem que contém. É só por isso que a Palavra de Deus pode falar à alma das pessoas, e é por isso que todas as outras autoridades devem ser rejeitadas. Como o poder de uma grande obra de arte, o poder da Bíblia para Lutero era auto evidente. A menos, por impossível, que alguém pudesse persuadi-lo de que ele não havia visto e sentido o que de fato havia visto e sentido, nada mais havia para ser dito.” [11]

O coração ou o núcleo essencial da mensagem bíblica, que, para Lutero, era o Evangelho, era algo que, para ele, se autenticava a si próprio como a Palavra de Deus, porque lhe trazia a experiência pessoal de libertação do sentimento de angústia, de medo, de terror de não ser salvo, e punha em seu lugar o sentimento de que estava livre do seu pecado, que era amado por Deus, não importa o que tivesse feito ou viesse a fazer, e que sua vida deveria ser vivida como a expressão de sua gratidão por esse dom totalmente imerecido.

Essa interpretação de Lutero nos faz, de certo modo, lembrar Karl Barth… que não era luterano, mas calvinista. A palavra de Deus é Cristo, ou a mensagem evangélica de que a salvação só é possível em Cristo, exclusivamente pela graça, através da fé… A Bíblia é importante porque ela contém, ou nos traz, essa mensagem, porque ela nos revela o amor de Deus em Cristo por nós.

A analogia da Bíblia como uma carta de amor nos ajuda a olhar para Lutero de uma forma diferente.

Calvino era um teólogo com uma natureza diferente. Calvino era uma pessoa totalmente racional, intelectualizada, do qual as emoções passavam longe. Lutero, não: ele era uma pessoa apaixonada. Até a sua razão, que ele de vez em quando chamava de puta, estava a serviço de sua paixão.

Compare-se o que, a esse respeito, diz um excelente, embora bastante antigo, manual de História da Doutrina: George Parker Fisher, History of Christian Doctrine – publicado há mais de cem anos, em 1911 [12]. Ele concorda com Ryrie no sentido de que, para Lutero, existe um “cânon dentro do cânon”, e que esse “cânon interno” é definido pelo seu conteúdo, não pela sua autoria. Eis o que ele diz (em tradução minha):

“Já por volta de 1525 Lutero defendeu a tese da exclusiva autoridade da Escritura, mas a associou com a doutrina da Justificação. [ . . . ] Com relação ao cânon, ele, como os demais reformadores, [ . . . ] negaram, sem exceção, o direito de os livros Apócrifos do Velho Testamento serem considerados normativos como o restante dos livros. O princípio da ‘analogia da fé’ foi introduzido. Segundo esse princípio, as ideias centrais que são ostensivamente apresentadas na Bíblia devem governar a interpretação das restantes, em especial das mais obscuras.

A princípio parece difícil harmonizar declarações críticas de Lutero em referência a livros canônicos e em relação à inspiração dos autores bíblicos, com o princípio de que a Bíblia é a regra de fé. Ninguém fala com mais reverência da Escritura Sagrada do que Lutero frequentemente fala. Todavia, muitas das declarações do tipo mencionado estão presentes exatamente no Prefácio de sua tradução do Novo Testamento — exatamente ali, para todo o mundo ver. Ele atribui aos diferentes livros diferentes graus de valor doutrinal e de insight acerca da essência do Evangelho. ‘O Evangelho de São João’, diz ele, e sua primeira Epístola, bem como as Epístolas de Paulo, em especial Romanos, Gálatas e Efésios, e a Primeira Epístola de Pedro — esses são livros que te mostram Cristo e que te ensinam tudo aquilo que é abençoado e necessário que tu conheças, mesmo que tu nunca mais venhas a ver ou ouvir qualquer outro livro ou doutrina. Por isso, a Epístola de Tiago é uma perfeita epístola de palha, se comparada a eles, porque não contém nenhum conteúdo evangélico’. Deve-se notar que Lutero não questiona a genuinidade da Epístola de Tiago, que, para ele, é comparativamente falando, uma epístola sem valor. [ . . . ]  Para ele, o conteúdo, não a autoria, de um livro é a questão de maior importância. Isto está implicado pelo que disse em relação a Gênesis: ‘O que importa se não foi Moisés quem escreveu?’ Lutero atribui um erro a Estêvão em Atos viii.2 (compare-se com Gênesis xii.1-4). Como podem observações como essas que acabam de ser citadas, e outras do mesmo tipo, ser declaradas compatíveis com a afirmação da autoridade da Bíblia? A história religiosa de Lutero fornece uma pista para a resposta. Foi no reconhecimento da verdade de que Cristo nos salva da condenação que decorre da Lei, ou seja, na verdade da salvação pela graça somente, que Lutero descobriu que a verdade tem o poder de portar consigo sua própria atestação. As partes da Escritura em que essa verdade, que ele considerou a substância e a essência do Evangelho, tem um lugar central, lhe forneceram o critério para medir o valor e o grau de inspiração que ele podia atribuir às demais partes da Escritura. A doutrina da Justificação pela Fé serviu-lhe como padrão para uma espécie de crítica que ele fazia dos livros bíblicos, crítica essa que, sem esse padrão, poderia parecer subjetiva e até mesmo arbitrária.

‘A Palavra de Deus’ é uma expressão que significa para Lutero o Evangelho da Graça de Deus, seja essa palavra proclamada, por escrito, na Escritura, ou, oralmente, na pregação. Deve-se acreditar no Evangelho porque ele é a Palavra de Deus, nesse sentido, palavra essa que, sendo verdadeira, se atesta a si mesmo dentro da alma. Apesar disso, Lutero geralmente se refere à Escritura como sendo a Palavra de Deus, quando usando linguagem descuidada, e, por vezes, até mesmo em linguagem mais explícita.”

Essa interpretação de Lutero também me faz lembrar Rubem Alves. Quem se interessar, leia o longo artigo dele, “Confissões de um Protestante Obstinado”, escrito em 1981, que eu transcrevi em um outro blog meu… [13].

NOTAS

[*]  “Tota Scriptura” é Latim para “Toda a Escritura” ou, melhor, “A Escritura Toda”. Em versão anterior deste artigo usei, como título, “Lutero e a Bíblia: Sola Scriptura, Mas Não Toda…”. Em 16/06/2017 me deparei na Internet com um artigo de R. C. Sprout, chamado “Tota Scriptura” (vide http://www.ligonier.org/learn/articles/tota-scriptura/). Diante disso, resolvi mudar o título deste artigo para “Lutero e a Bíblia: Sola Scriptura, Mas Não Tota Scriptura”, para criar uma simetria com as expressões em Latim. Em artigo posterior, vou comentar o artigo de R. C. Sproul, no contexto da tese que aqui atribuo a Lutero, com base nos argumentos de vários autores de primeira linha. [Nota acrescentada posteriormente, em 18/06/2017: Já escrevi o artigo, que está publicado em https://reformation.space/2017/06/16/lutero-r-c-sproul-e-tota-scriptura/, com o título “Lutero, R. C. Sproul e Tota Scriptura“. EC].

[1] A passagem inteira atribuída a Lutero é: “A menos que seja convencido por testemunho das Escrituras e por argumentos claramente racionais, porque nem no Papa nem nos concílios eu acredito, já que está mais do que provado que eles frequentemente erram e se contradizem, eu, com base nos textos da Sagrada Escritura que indiquei, sou obrigado a me submeter à minha consciência e ficar fiel à Palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero me retratar de nada, porque agir contra a própria consciência não é certo nem seguro. Nada mais nem diferente posso fazer. Aqui estou e aqui fico. Que Deus me ajude!” Como eu disse na nota a essa passagem no meu artigo “As Teses Principais de Lutero”, já mencionado: “A tradução do Alemão é minha. O texto no original em Alemão é: “Wenn ich nicht durch Zeugnisse der Schrift und klare Vernunftgründe überzeugt werde; denn weder dem Papst noch den Konzilien allein glaube ich, da es am Tage ist [feststeht], daß sie öfter geirrt und sich selbst widersprochen haben, so bin ich durch die Stellen der Heiligen Schrift, die ich angeführt habe, überwunden in meinem Gewissen und gefangen in dem Worte Gottes. Daher kann und will ich nichts widerrufen, weil wider das Gewissen [etwas] zu tun weder sicher noch heilsam ist. Hier stehe ich und kann nicht anders! Gott helfe mir, Amen!” Apud Heimo Schwilk, Luther – Der Zorn Gottes: Biografie (Blessing, München, 2017), p.237. Vide também http://www.luther.de/leben/worms.html. As palavras entre colchetes foram acrescentadas a partir da página mencionada na Internet. No primeiro caso elas esclarecem o sentido de uma expressão idiomática. No segundo, a palavra em colchetes parece faltar no texto do livro. No livro Martin Luther – Rebell einer Zeit des Umbruchs: Eine Biografie, de Heinz Schilling (C. H. Beck, München, 2012, 3.ed. 2017), p.226, há uma inversão na ordem das últimas frases (que alguns consideram ter sido acrescentadas ao discurso pelo editor do relato), inversão essa que eu optei por seguir na tradução: “Ich kann nicht anders. Hier stehe ich. Gott helfe mir. Amen.” O livro de Tillmann Bendikoswki, Der deutschen Glaubenskrieg: Martin Luther, der Papst und die Folgen (C. Bertelsmann, München, 2016), pp.35-36, concorda com Schilling.”

[2] Alec Ryrie, Protestants: The Faith that Made the Modern World (Viking, New York, 2017), p.30.

[3] Alec Ryrie, op.cit., loc.cit.

[4] Alec Ryrie, op.cit., loc.cit.

[5] Diarmaid MacCulloch, The Reformation: A History (Penguin, London, 2003, 2004, 2005), pp.134-135.

[6]  Alec Ryrie, op.cit., pp.30-31.

[7] Cp. a esse respeito, um excelente, embora bastante antigo, manual de História da Doutrina: George Parker Fisher, History of Christian Doctrine (Charles Scribner’s Sons, new York, 1896, 1911), pp.279-280, que será citado verbatim adiante, quase no final, como texto ao qual está atribuída a Nota 12. Vide também especialmente Reinhold Seeberg, em seu detalhado livro, Text-Book of the History of Doctrines, Vol. II (Baker Book House, Grand Rapids, 1952), pp.298-302. Parte do argumento de Seeberg é resumido por Rupert E. Davies, em The Problem of Authority in the Continental Reformers (Epworth Press, London, 1946), pp.34,36, conforme se constata em citação feita por Robert Clyde Johnson,  em Authority in Protestant Theology (Westminster Press, Philadelphia, n/d), p.37. Esta é a passagem citada, em tradução minha. Os colchetes aparentemente foram colocados por Davies. As ênfases foram acrescentadas por Johnson. Eis o que diz Davies “A seguir, a mais clara e mais definida declaração em toda a obra de Lutero sobre a relação entre a Palavra de Deus e os livros do Novo Testamento. ‘A tarefa do verdadeiro apóstolo é pregar sobre os sofrimentos, a ressurreição e o ofício de Cristo, e lançar o fundamento  desta fé, como o próprio Jesus diz em João xviii [sic], vós dareis testemunho de mim; e todos os livros santos genuínos concordam nesse ponto, que todos eles pregam a Cristo e tratam dele. Além disso, encontra-se aqui um critério para julgar todo sos livros, se eles tratam de Cristo ou não, visto que toda Escritura mostra Cristo (Romanos iii), e Paulo não quer saber de nada a não ser de Cristo (I Coríntios ii). Aquele livro que não ensina Cristo, não é apostólico, mesmo que Paulo ou Pedro seja o autor; e, por outro lado, aquele que prega a Cristo, é apostólico, mesmo que Judas, Anás, e Pilatos façam a pregação. [Novo #] Concluímos, portanto, que, de 1520 em diante, Lutero podia falar e escrever, em momentos em que estava com a guarda baixa, que o texto da Bíblia se identifica com a Palavra de Deus; mas, quando ele queria fazer uma declaração cuidadosa, depois de estudar a questão bem, ele concluía que, dentro do Novo Testamento, os livros todos deveriam ser testados por esse critério: ele prega o evangelho da justificação ou não, e, em caso negativo, não deveriam ser considerados parte da Palavra de Deus”. É preciso registrar que Johnson, que cita essa passagem, não concorda com o que é dito nela, preferindo distinguir entre “livros apostólicos” e “livros não-apostólicos”, mas considerando todos eles, mesmo os não-apostólicos, como seria o caso de Tiago, também Palavra de Deus. Ernst Troeltsch, em The Social Teachings of the Christian Churches, Vol. 2 (Harper, New York, 1931, 1960), p.486, também discorda da interpretação que Fisher, Seeberg, Davies e Ryrie fazem de Lutero (e que eu, aqui, endsso).

[8] Apud Alec Ryrie, op.cit., p.31, ênfases acrescentadas. Conforme p.476, nota 16, a citação foi retirada de Luther’s Works, vol.14, Selected Psalms III, Jaroslav Pelikan e Daniel E. Poellot, eds. (Concordia, Saint Louis, 1958), p.36.

[9] Apud Alec Ryrie, op.cit., p.31. Presumo que essa passagem venha do mesmo local da citação anterior, mas Ryrie não deixa isso claro, embora coloque aspas na citação.

[10] Diarmaid MacCulloch, op.cit., pp.133-134. Minha tradução, ênfases em negrito acrescentadas por mim.

[11] Alec Ryrie, op.cit., pp.31-32. Minha tradução, ênfases em negrito acrescentadas por mim. Neste caso Ryrie faz referência, na nota 18 da p.476, a um livro que não me foi possível consultar, dizendo que esse argumento foi poderosamente apresentado por Scott H. Hendrix, Tradition and Authority in the Reformation (Variorum Collected Studies, Aldershot, Reino Unido, 1996), p.2:147. [Acabei de adquirir o livro de uma loja de livros usados nos EUA, através do site https://abebooks.com (16/06/2017)]. [Foram tantos os intermediários, Amazon, Book Depository, e Abe Books, todos eles fazendo questão de que eu não negociasse diretamente com quem afirmava realmente ter o livro disponível, que era um sebo chiquérrimo perto de Harrisburg, PA, chamado Midtown Scholar, que estou com medo de receber um e-mail a qualquer momento informando que não foi possível encontrar ou enviar o material. (18/06/2017)].

[12] Op.cit., loc.cit. (Charles Scribner’s Sons, new York, 1896, 1911), pp.279-280.

[13] O blog em que transcrevo o belíssimo artigo do Rubem Alves, que até o final da vida se declarava Protestante (“sou”, dizia ele, “porque fui”), é Theological Space: https://theological.space/2015/10/07/confissoes-de-um-protestante-obstinado-depoimento-de-rubem-alves/.

Em São Paulo, 2 de Junho de 2017; revisto e ampliado, agora já em Salto, em 4-5 de Junho de 2017; mais uma vez revisto e ampliado, também em Salto, em 15-16 de Junho de 2017.

4 Comments

    1. Obrigado, amor… Fiquei com receio que você não gostasse muito, porque o artigo tem um toque meio liberal, mas que bom que gostou. E parabéns pela sua página no Facebook, que está indo de vento em popa!

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  1. Seus ensaios merecem – você merece – que compunham um livro. Curto-os pela qualidade intelectual e beleza dos textos. Abraços.

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    1. Obrigado, Eliezer. Passa a minha cabeça a ideia de juntar os artigos em um livro sobre Lutero. Mas não quero deixar que essa ideia condicione o que escrevo. Quero ter liberdade de abordar temas conforme as leituras e as reflexões os sugiram. Se, no fim, der para juntar tudo num livro coerente, ótimo. Se não der, fica só o blog. Há outro fator: o 31/10/2017. Comecei meio tarde com este projeto. Dificilmente conseguiria juntar tudo num livro pronto e burilado até a data. O blog tem a vantagem de a gente poder fazer correções e melhorias a qualquer momento. Congelar as coisas numa página impressa impede essa liberdade um pouco. Por isso, agradeço o elogio e a sugestão, mas vou continuar a escrever aqui por enquanto. Tenho ainda muita coisa escrita que pretendo ir passando para cá pouco a pouco. Parei com meus outros projetos para fazer isso.

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