Lutero, Erasmo e Karlstadt. 1 – Introdução: Amigos ou Inimigos?

[Seguem, além da Introdução, mais dois capítulos, razoavelmente longos]

1 – Introdução: Amigos ou Inimigos?

“A tragédia da Reforma [na Alemanha] foi que Lutero
destruiu as relações pessoais com quase todos aqueles
que, um dia, poderiam vir a calçar os seus sapatos” [*]

Ontem à noite (na realidade, hoje de madrugada, 17/06/2017, quase 4h), quando tentava dormir, me ocorreu escrever um artigo sobre Lutero e dois personagens que na História da Reforma Luterana, têm recebido papéis menores, mas não sem importância, um à sua direita, o outro à sua esquerda, por assim dizer.

Considerando Lutero o balizador, um, o que coloco à direita, queria menos reforma; o outro, que coloco à sua esquerda, queria mais; um o achava demasiado ousado; o outro, embora não negasse as ousadias verbais de Lutero, o considerava demasiado tímido, quando se tratava de fazer coisas — não de apenas dizê-las.

Ambos, quando ouviram falar de Lutero, ou quando começaram a se relacionar com ele, o admiraram, e chegaram até ser, cada um do seu jeito, amigos dele. Os dois tiveram bastante esperança de que ele faria algo extremamente importante e essencial — e que o faria na direção básica que eles desejavam.

Ambos tinham estatura intelectual e moral para assumir o lugar de Lutero, se e quando ele viesse a desaparecer e eles continuassem vivos e livres.

Com o tempo, porém, Lutero, brigão por natureza, se indispôs com ambos. Começaram como amigos e terminaram como inimigos — ou perto disso. Não que a culpa fosse exclusivamente de Lutero. Os outros dois também eram, cada um à sua moda, personagens difíceis e até mesmo problemáticos — não necessariamente pelas mesmas razões. E, além de tudo, cada um queria puxá-lo por e para um lado: um, pelo seu braço direito, para um lado mais conservador; o outro, pelo seu braço esquerdo, para um lado mais radical. Independentemente do lado para o qual ele estava sendo puxado, Lutero não era pessoa para ser puxada ou pressionada: ele só sabia empurrar…

Em relação a um deles, os dois morreram inimigos, detestando-se.

Em relação ao outro, houve uma reaproximação e até um ameaço de reconciliação, mais para o fim da vida de ambos. Mas ficou nisso. E a reaproximação parece ter sido mais obra de Katharina, mulher de Lutero, do que dele próprio, que, se dependesse só de si, não era pessoa de dar o braço a torcer e voltar atrás em algo que, em seu íntimo havia decidido: tratava-se, senão de um inimigo, de um adversário perigoso… e perigoso, porque rival!

Lutero é o centro, não é necessário dizer. Hors concours, ao extremo. O vértice principal do triângulo.

Quem coloco à sua direita é um personagem que eu sempre admirei, desde que comecei a estudar a história da filosofia, da teologia, e das ideias em geral: Desidério Erasmo de Roterdã (Desiderius Erasmus Roterodamus, 28/10/1466 a 12/07/1536 [1]), nascido na Holanda, nessa cidade simpática, Roterdã, por cuja estação ferroviária eu passei em Janeiro deste ano (2017), lembrando-me dele, enquanto matava tempo na estação – era noite e não dava para sair matando tempo pela cidade. Mais velho em dezessete anos do que Lutero, morreu dez anos antes – e, portanto, viveu sete anos a mais.

Na área humanística e filosófica Erasmo fez mais do que sombra para Lutero, porque nelas era imbatível. Talvez por isso, e pela idade de ambos, Lutero nunca o considerou propriamente um rival nos arraiais protestantes — em especial no arraial luterano e alemão, onde ele reinava supremo.

Como ser humano e como pessoa, também, considero Erasmo um ser superior – embora eu tenha o maior respeito por Lutero, com todas as suas loucuras, grossuras e contradições. É uma questão de epiderme, de química. Erasmo era gente fina, finíssima. Embora tenha escrito sobre a loucura, fazendo-lhe ironicamente um elogio [2], dele ninguém nunca foi capaz de dizer que fosse louco, grosso, e contraditório, ou que estivesse possuído pelo demônio (no qual ele, provavelmente, nem acreditava). Pelo contrário. Depois da briga feia que teve com Lutero, em 1525-1526, sobre a questão do livre arbítrio, deve ter se arrependido profundamente de ter se metido com o alemão. Quem o fez, saiu arranhado, se não estropiado. No caso de Erasmo, era um jogo desigual de sensibilidades, de elegância, de fineza no trato… Erasmo nunca seria capaz de ofender a alguém da forma penetrante (e não raro nojenta) com que Lutero era capaz de fazê-lo. O Papa Leão X que o diga. Na verdade o que mais ofendia a sensibilidade de Erasmo era o fato de Lutero dizer coisas absurdas e horrorosas exatamente contra o Papa, a quem ambos, no mínimo, deviam certo respeito, por serem os dois sacerdotes. No máximo, basta dizer que três dos Papas que Lutero ofendeu, chamando-os de Anticristos, de Bestas do Apocalipse, e outras coisas, sem jamais tê-los encontrado ou mesmo visto, e, portanto, sem os conhecer (só viu Júlio II [Pontificado: 1503-1513], mas esse ficou antes da história da Reforma), eram amigos pessoais de Erasmo: Leão X (Pontificado: 1513-1521), Adriano VI (Pontificado: 1522-1523) [3], e Clemente VII (Pontificado: 1523-1534). Discordar de alguém é algo normal e natural. Criticar de forma incisiva, mas elegante, mesmo usando ironia, é algo normal para quem consegue fazê-lo. Ofender grotescamente, não. Além da crítica moral que uma atitude dessas merece, ela reflete, possivelmente, a ausência de bons argumentos.

Erasmo, como David Hume (1711-1776), 250 anos depois, um outro herói meu, era mestre da ironia fina. Nem sarcástico ele conseguia ser. Ambos eram espíritos muito semelhantes.

Quem eu coloco à esquerda de Lutero é um outro personagem que eu aprendi a admirar apenas recentemente, quando estava à procura de um personagem menor da Reforma Protestante para discutir em um evento sobre “As Outras Faces da Reforma Protestante”, que está sendo promovido pelo Mackenzie para Novembro deste ano (dia 23). Depois de gastar um bom tempo lendo sobre as estrelas de menor grandeza da Reforma Protestante (não só Luterana), hesitei entre dois, e acabei por descartar Balthasar Hubmaier, um personagem fantástico, mas que foi executado muito cedo (como se fosse menos lastimável se tivesse sido executado mais tarde…) e optar por Andreas Rudolph Bodenstein von Karlstadt (1486 – 24/12/1541 [4]). Da mesma forma que Erasmo, ele carrega no nome que se apegou a ele, ou ao qual ele se apegou, a referência à cidade em que nasceu, Karlstadt, na Alemanha. Vinte anos mais novo do que Erasmo e cerca de três anos e pouco mais novo do que Lutero, ele morreu cinco anos depois de Erasmo e cinco antes de Lutero. Teve uma vida que prometia muito, mas que acabou por ser bem mais trágica do que a vida dos outros dois — em grande parte porque Lutero não suportava ter ao seu lado alguém que seriamente discordasse dele ou, pior, que ameaçasse a sua condição de herói maior da Reforma Luterana, seja no plano do pensamento, seja no da ação.

Sei que vou ser criticado por essa afirmação, por isso vou tentar argumentar com vários  fatos e com o devido cuidado.

Embora mais novo do que Lutero, Karlstadt era superior hierárquico de Lutero na Universidade de Wittenberg, onde onde ele exercia um cargo equivalente ao de Chanceler ou Reitor quando, em 1512, Lutero se doutorou ali. Foi Karlstadt quem, nessa condição, lhe outorgou o título de Doutor e lhe entregou o diploma de Doutorado. Lutero em seguida começou a trabalhar na Universidade de Wittenberg, passando a ser colega de Karlstadt. Foi alocado ao Departamento de Teologia Bíblica, do qual Karlstadt era o chefe e o nome mais importante.

Enquanto Lutero se adaptava à Universidade, Karlstadt moveu-se rapidamente à frente. Já era Doutor em Teologia (título obtido em 1510) e obteve mais dois Doutorados, um atrás do outro, quase simultâneos, na Universidade Sapienza, em Roma, onde foi passar um período de estudos: um em Direito Canônico, o outro em Direito Civil. Karlstadt, portanto, se tornou “tri-Doutor” em 1516 — um feito raríssimo.

Ao voltar de Roma, em 1516, ficou próximo de Lutero na Universidade e os dois discutiram bastante, de forma amigável, a importância da teologia agostiniana. Lutero chegou a recomendar a Karlstadt que comprasse uma edição completa da obra do famoso bispo de Hipona que era patrono do mosteiro em que Lutero vivia. Discutiram também qual seria a mais correta interpretação das partes cruciais à doutrina da salvação nas principais cartas paulinas, Romanos, Gálatas e Efésios, e se a teologia paulina, interpretada através de lentes agostinianas, e não tomistas ou escolásticas (como o fazia a Igreja Católica), ia na direção contrária ao pensamento oficial da Igreja do século 16, a que ambos serviam.

No início de 1517, cerca de seis meses antes de Lutero, Karlstadt resolveu publicar 150 (CL) Teses que continham erros teológicos da Igreja Católica. Cerca de seis meses depois, Lutero publicou divulgou as suas 95 (XCV) Teses. Entre os dois conjuntos de teses há bastante compatibilidade, embora Lutero tenha optado por focar suas baterias mais sobre a questão das Indulgências — que, convenhamos, dentro da Soteriologia, ou da Teologia da Salvação ou Redenção, é uma questão menor.

A partir de 31/10/1517, quando Lutero publicou suas teses, Kalrstadt lhe deu todo apoio, em especial quando Lutero começou a ter problemas com a Igreja Católica.

A maioria dos historiadores acredita hoje que os problemas de Lutero com a Igreja Católica não resultaram da mera publicação das suas teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg — igreja que funcionava como a capela da Universidade (se é que ele de fato fez isso, algo de que muitos historiadores duvidam). Mesmo que o tenha feito, o procedimento era comum e as teses de Lutero não eram tão sensacionais assim. O que causou os problemas de Lutero com a Igreja Católica foi um procedimento ousado, e, segundo tudo indica, premeditado, que passo a descrever. 

Ao concluir a redação de suas teses, Lutero imediatamente despachou, em 31/10/1517, uma cópia das suas teses, acompanhada de uma carta pessoal, para o Arcebispo Alberto de Brandenburgo.

Cabe aqui um parêntese sobre esse indivíduo a quem Lutero remeteu as suas teses.

Pelo nome que ele carrega, que também indica a região de onde veio, já se percebe que ele não era “café pequeno”, pois descendia de uma das famílias mais importantes da Alemanha, que fazia parte da já famosa Casa de Hohenzollern, dinastia com presença obrigatória, desde o século onze, nas famílias reais da Alemanha (Sacro Império Romano), da Prússia, da România, etc., e que só deixou de ser ativamente exercido em pleno século 20, depois do término da Primeira Guerra Mundial [5]. Da Reforma para cá, os Hohenzollern dominaram a Prússia [6], depois a nação chamada Brandenburgo-Prússia, decorrente da unificação de Brandenburg (uma região alemã) com a Prússia, em 1618 [7], depois a nação chamada Reino da Prússia, decorrente da anexação, por parte de Brandenburgo-Prússia, a partir de 1701, de boas partes da Polônia, da Rússia, existindo esse reino de 1701 a 1918 [8], e, depois, a partir de 1871, o  Império Alemão, resultante da unificação do Reino da Prússia com as demais regiões alemãs, ocasião em que se procedeu a unificação da Alemanha em 1871 [9].

Passando da família para a pessoa de Alberto de Brandenburgo, este, em 1515, quando tinha meros vinte e três anos (nasceu em 1490 e morreu em 1545), já era “Bi-Arcebispo” (Arcebispo de Magdeburgo [desde 1513] e Arcebispo de Mainz [desde 1514], embora isso fosse proibido pela Igreja) e, de sobra, geria administrativamente, também desde 1513, um terceira diocese (a da cidade de Halberstadt, perto de Magdeburgo). Na qualidade de Arcebispo de Mainz, Alberto de Brandenburgo se tornou Eleitor do Imperador — isto é, adquiriu o direito, inerente a esse arcebispado, de participar do processo de escolha e seleção do Imperador do Sacro Império Romano, por ser essa arquidiocese a mais importante da Igreja Católica na Alemanha [10].

Ocupando a principal sede da Igreja Católica na Alemanha, e sendo detentor, tanto pela família a que pertencia como, agora, por méritos (?) próprios, de enorme poder político, não é de surpreender que, quatro anos depois, em 1518, Alberto de Brandenbergo tenha conseguido persuadir o Papa Leão X a nomeá-lo Cardeal e a torná-lo, aos vinte e oito anos, nada menos do que o Cardeal Primaz da Igreja Católica em toda a Alemanha. Ou seja, a partir de 1518, Alberto de Brandenburgo era, confirmadamente, nada menos do que o Católico mais importante da Alemanha — ou do Sacro Império Romano. Convenhamos: não é pouco [10]..

Quando o Papa Leão X resolveu autorizar a venda das Indulgências na Alemanha, destinadas, segundo se alegava, a obter recursos para a reforma da Basílica de São Pedro, foi a Alberto de Brandenburgo que ele atribuiu o direito de “explorar” as Indulgências em seu território [10].

O termo “explorar”, na última frase, não é, como poderia parecer aos incautos, de todo impróprio, no contexto, pois corria a boca solta a notícia (hoje mais do que confirmada) de que Alberto de Brandenburgo literalmente comprou o segundo arcebispado (algo de resto não incomum), e que o teria feito com dinheiro tomado emprestado aos banqueiros da Casa de Fugger, o banco mais importante da Alemanha na época, e que, no processo, havia feito um acordo com o Papa para que este lhe concedesse o direito de vender as Indulgências nos territórios sob sua jurisdição, cuja receita seria dedicada,  na proporção de 50% para a Santa Sé e de 50% para quitação gradual da dívida assumida pelo Arcebispo junto aos banqueiros… Talvez o cardinalato já tivesse feito parte do “rolo”, porque todo o mundo tinha certeza de que, mais dia, menos dia, Alberto seria, além de Bi-Arcebispo, também Cardeal… [10].

Bem, foi para esse cidadão que Lutero enviou as suas teses. Na carta que acompanhou o documento, ousou mencionar que o Arcebispo deveria fazer algo para melhorar sua reputação, pois notícias terríveis circulavam acerca dele e as Indulgências…

Ingenuidade ou extrema esperteza? Se é verdadeiro o dito de que mede-se a estatura de um indivíduo pelos oponentes que ele escolhe enfrentar, achar que a decisão de Lutero de enviar as teses para o Bi-Arcebispo e Quase-Cardeal é ingenuidade é depreciar sua inteligência.

Alberto de Brandenburgo chamou seus assessores, eles analisaram as XCV Teses de Lutero, e recomendaram que o Alberto as encaminhassem ao Papa, porque, se nelas havia alguma coisa que afetasse negativamente o Arcebispo, ela afetava, igualmente, e talvez mais ainda, Santidade, e porque, em algumas das teses, Lutero ousava dizer que o Papa não tinha autoridade para eliminar ou reduzir penitências, muito menos para perdoar pecados, através das Indulgências, e, assim lançava sérias dúvidas sobre a Autoridade Suprema do Papa em questões religiosas, não sobre a autoridade do Arcebispo… Belo e engenhoso parecer o dos assessores do Arcebispo. Mas ele devia ter bastante dinheiro para pagar por bons assessores a essas alturas…

Foi o que Alberto de Brandenburgo fez (ele não era conhecido como “O Sábio”, mas agiu sabiamente): enviou as teses de Lutero para o Papa, que, depois de lê-las, determinou que um assessor seu as analisasse, e, com base nessa análise, imediatamente intimou Lutero a comparecer em Roma para se explicar e justificar.

Lutero, bem assessorado, se recusou a ir. A principal assessoria de Lutero era Spaladino, que era seu amigo, e, além disso, também era Núncio Apostólico junto à Corte do Principe-Eleitor Frederico III, “O Sábio”, da Saxônia, e, nessa condição, respeitado assessor para assuntos relacionados à Igreja de quem viria a se tornar o principal protetor de Lutero no “imbroglio” em que se meteu.

Com a assessoria competente que tinha, e que o ajudou a decidir a não atender a intimação do Papa de ir a Roma, parece claro que Lutero se meteu no imbroglio em que de fato se meteu, mas não por ingenuidade e pobreza de espírito, mas de caso pensado.

Na verdade, foi nesse momento, em que Lutero se recusou a atender a intimação do Papa Leão X para que fosse a Roma explicar e justificar suas teses, que Lutero começou a ficar famoso… e a correr perigo de vida. 

Para concluir esta já longa Introdução…

Se, na época (isto é, ao longo de 1516 e 1517), alguém houvesse estudado, de forma isenta e objetiva, as inquietações teológicas que começavam a borbulhar na Universidade de Wittenberg, e que, quem sabe, já poderiam caracterizar a emergência de uma Teologia Wittenberguiana, e publicasse, ao final de 1517 (isto é, antes de que se tornasse pública a informação de que Lutero havia enviado suas teses ao Arcebispo, que esse as havia encaminhado ao Papa, e que este havia intimado Lutero a ir a Roma para se explicar e justificar) uma análise que ousasse a fazer alguma predição sobre o que poderia resultar das ideias em ebulição em Wittenberg, será que entre as suas predições estaria a do surgimento de uma Igreja Luterana ou de uma Igreja Wittenberguiana? E, se fosse a segunda, prediria que seu líder seria Lutero ou Karlstadt?

Relembremos:

  1. Karlstadt, embora mais novo do que Lutero, havia obtido seu Doutorado antes de Lutero (ele em 1510 e Lutero em 1512);
  2. Karlstadt se tornou Chefe do Departamento de Teologia Bíblica da Universidade de Wittenberg e Chanceler / Reitor da Universidade quando Lutero era ainda simples aluno da Universidade;
  3. Karlstadt outorgou o título de Doutor a Lutero em 1512;
  4. Karlstadt contratou Lutero, nessa mesma data, para ser professor do departamento que ele chefiava, o de Teologia Bíblica;
  5. Karlstadt, aproveitando o alívio que a contratação de um novo professor para o departamento lhe dava, foi para a Roma e lá, em 1515-1516, obteve um segundo e um terceiro Doutorado;
  6. Karlstadt, retornando à Universidade de Wittenberg, começou, em 1516 e no início de 1517, a fustigar a mente de Lutero com questões teológicas, confrontando o entendimento de Agostinho de Hipona e de Tomás de Aquino acerca da salvação / redenção com o entendimento, de um lado, de Paulo, e, de outro, da Igreja Católica;
  7. Karlstadt, por volta de Abril de 1517, seis meses antes de Lutero, publicou suas CL Teses acerca dos erros da Igreja Católica…

Há outro fato a mencionar, embora ele tenha tido lugar em 1519. Nesse ano, quando Johannes Eck resolveu, com a autorização do Duque da Saxônia (o governante da parte da Saxônia que não estava sob o comando de Frederico, O Sábio), debater, na Universidade de Leipzig, que considerava a Universidade de Wittenberg sua principal rival (até porque as duas haviam sido criadas e eram geridas pelos dois cabeças da Saxônia e eram relativamente próximas uma da outra), as questões que estavam em discussão em Wittenberg, o convite foi dirigido a Karlstadt, não a Lutero... Isso em pleno ano de 1519. Lutero só entrou no debate quando este se encontrava no quinto dia! E, na volta para Wittenberg, quando Lutero pleiteou um salvo-conduto do Duque, este, em vez de lhe conceder um, como já havia feito em relação a Karlstadt, o chefe da delegação, simplesmente alterou o salvo-conduto de Karlstadt para que nele constasse “Karlstadt e seus acompanhantes”… Quem conhece Lutero sabe que ele deve ter ficado humilhadíssimo com esse tratamento dado a ele.

Os desentendimentos mais sérios de Lutero com Kalstadt começaram em 1521-1522, quando Lutero estava em exílio no Castelo de Wartburgo, tendo chegado ao auge quando Lutero retornou para Wittenberg para retomar as rédeas de um movimento que começava a escapar-lhe ao controle… porque Karlstadt havia tomado suas rédeas, com a colaboração e o apoio de Melanchthon, até então o mão-direita de Lutero!

Mas seria surpreendente se Lutero, diante dos fatos registrados atrás, e tendo a personalidade e o caráter que depois ficaram evidentes, já não tivesse sentido inveja e ciúme de Karlstad desde o início… Como, talvez, sentisse também algo equivalente em relação ao enorme sucesso — já global — de Erasmo.

Erasmo de Roterdã e Andreas von Karlstadt. Duas grandes figuras, cada um a seu jeito. Each of them, his way…

Notas

[*] Lyndal Roper, Martin Luther: Renegade and Prophet (Random House, New York, 2017), p. 370.

[1] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Erasmus.

[2] Stultitiae Laus (Em Louvor à Loucura, In Praise of Folly) foi escrito por Erasmo em Latim em 1509 e publicado dois anos depois, em 1511. Eis o que diz a Wikipedia US acerca do livro: “Em Louvor à Loucura é um ataque satírico às superstições que eram tradicionais na sociedade europeia, e que grassavam especialmente na Igreja Ocidental, católica. Erasmo o escreveu em uma semana, enquanto gozava da companhia de Sir Tomás Moro, [o autor de Utopia,] na bela propriedade deste em Bucklersbury, na Inglaterra. Ao retornar para o Continente, Erasmo revisou e estendeu a obra, que é considerada um dos livros mais notáveis da Renascença, recebendo crédito por ter tido um papel de fundamental importância na gênese da Reforma Protestante.” https://en.wikipedia.org/wiki/The_Praise_of_Folly.

[3] Eis um pedaço de um diálogo entre Lutero e Adriano VI, conhecido antes como Adriano de Utrecht – era holandês, como Erasmo, e ambos eram velhos amigos… Eis um pedaço do diálogo entre os dois, que demonstra a intimidade entre os dois – e a franqueza, que só existe entre verdadeiros amigos. Adriano VI, que foi Papa por menos de dois anos, contatou Erasmo imediatamente, por carta, convidando para ir morar em Roma, pois o queria perto, como seu querido assessor… Eis parte do diálogo, narrado por Roland H. Bainton,  em sua biografia de Erasmo, em que este começa falando ao Papa, também por carta, em resposta ao convite do Papa: “Confio que você vá permitir que essa sua pequena ovelha se dirija com franqueza ao seu pastos… Será que você não quer que eu venha a residir em Roma para que, aqui, perto de você, não seja mais com muita facilidade corrompido pelos luteranos? Eu lhe asseguro que, mesmo onde estou, estou longe o bastante dos luteranos para que a corrupção pelas ideias dele seja um real perigo. E se você, por outro lado, espera que eu o ajude a curá-los de sua doença, eu replico: como pode um doutor trabalhar eficazmente longe de seu paciente? E há outro problema ainda. Se eu vier a morar em Roma os luteranos vão imediatamente me acusar de ter sido subornado pelo Papa e deixarão de ler o que eu escrevo. Pode parecer, pelo que escrevi até agora, que estou pensando apenas em mim, não em você. Vou então lhe dar um conselho, diferente daqueles que você deve estar recebendo da sua Cúria: seja como for que você resolva curar essa doença, não tente fazê-lo pela força ou com violência. Essa linha de ação seria extremamente imprudente, pois poderia, ao final, resultar numa enorme catástrofe. A doença já está por demais avançada que uma tentativa de tratamento cirúrgico, como foi feito na Inglaterra com Wycliffe, não vai funcionar. A Alemanha não é a Inglaterra. A Inglaterra, quando precisou tratar do problema dos Lolardos [adeptos de Wycliffe], tinha um governo centralizado e forte. A Alemanha não tem um governo central, quanto mais forte. Quem manda lá são os príncipes, e você não vai conseguir fazer nada sem que os príncipes o queiram, mesmo que o Imperador esteja do seu lado. Além disso, se sua decisão está tomada, e o seu desejo é tentar acabar com o movimento com execuções, prisões, açoites, confiscos, censuras, banimentos, exílios, etc. você me conhece o suficiente para saber que meus conselhos não lhe valerão de nada. Mas estou convicto de que você realmente não optou por esse caminho [a despeito de ter mandado queimar os livros de Lutero – mas Erasmo não disse isso: por que dizer aquilo que o Adriano sabia?], porque você tem uma natureza humana gentil e delicada. Minha sugestão é a seguinte: Primeiro, tente enfronhar-se das razões pelas quais o movimento surgiu e porque conseguiu chegar tão longe. Segundo, ofereça imunidade aos que já foram seduzidos, certeza de que não serão punidos. Melhor ainda: ofereça a todos uma anistia geral: ninguém será punido por ser ou ter se tornado luterano, ou ter se aproximado deles. Se Deus perdoa os pecadores contritos todos os dias, por que seu Vigário na terra faria menos do que isso? A supressão, pura e simples, de ideias novas, por parte de quem tem poder, não gera sua rejeição nem mais piedade: produz sedição.” Roland H. Bainton, Erasmus of Christendom (Charles Scribner’s Sons, New York, 1969), pp.173-174.

 

[4] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Andreas_Karlstadt.

[5] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/House_of_Hohenzollern.

[6] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Prussia.

[7] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Brandenburg-Prussia.

[8] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Kingdom_of_Prussia.

[9] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/German_Empire.

[10] Vide, na Wikipedia US, https://en.wikipedia.org/wiki/Albert_of_Brandenburg.

Em São Paulo, 18 de Junho de 2016; revisado em Salto, 21 de Junho de 2017.

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