A Questão das Causas da Reforma (Peter Marshall)

Em outro artigo (publicado exatamente antes deste, neste blog), “Será que Só Teses Teológicas  Causaram a Reforma?”, que pode ser encontrado no endereço

https://reformation.space/2017/06/04/sera-que-so-teses-teologicas-causaram-a-reforma/,

levantei, no artigo como um todo, mas de modo especial numa nota de fim de texto, a de número quatro (a última), uma questão importante para a Reforma Protestante e para a Historiografia ou Filosofia da História. Dada a importância da questão levantada, estou citando, agora no corpo de um artigo, e não numa nota de fim de texto, a passagem que retirei do magnífico livro de Peter Marshall, recentemente publicado (em Maio de 2017, o mês recém findo!), com o título Heretics and  Believers: A History of the English Reformation [1].

Diz ele, em uma passagem do Prefácio, que tomo a liberdade de traduzir com alguma liberdade (advirto o leitor que a tradução, especialmente mais para o fim, não é literal, e contém alguma contribuição minha que, espero, não trai a intenção do autor, mas a aprimora). Eis a passagem, com uma formatação que é impossível dar-lhe numa nota de rodapé:

“De um lado, devo esclarecer que é uma pressuposição deste livro, pressuposição que acredito não precisar defender,

  • que os conflitos envolvidos na Reforma foram principalmente acerca de questões religiosas, e
  • que o aspecto religioso dessas questões não era um mero disfarce que escondia questões mais fundamentais ou ‘reais’ acerca de dominação social, poder político, e interesses econômicos.

De outro lado, devo enfatizar também

  • que seria um absurdo afirmar que as questões em jogo na Reforma eram ‘apenas e tão somente’ religiosas.

Na verdade, fazer o que está descrito na terceira dessas teses seria sugerir que a religião, naquela época (a época da Reforma), era um fenômeno isolado, desconectado de outras esferas de valor e sentido que afetam profundamente a vida que as pessoas do Século 16 de fato viviam. Muito pelo contrário. Insisto

  • que a ‘religião’ era, no Século 16, parte inextricável do tecido que envolvia todas as outras abstrações com que tentamos artificialmente separar os aspectos do complexo fenômeno que é a existência humana: não só sociedade, política, e economia, mas também a cultura (arte, literatura, gênero, etc.).

Que símbolos ou argumentos religiosos possam ter sido usados para alcançar, em determinados momentos e contextos, fins sociais, políticos ou econômicos, ou mesmo culturais (num sentido que transcende o religioso), só serve para confirmar a profundidade e a importância da religião naquele contexto, não para mostrar que as questões religiosas eram mais rasas e menos significativas do que as questões sociais, políticas, econômicas e culturais (num sentido mais amplo de cultura)[2].

Concordo basicamente com tudo o que está dito aí, tanto na condição de alguém que se ocupa de escrever e dar aulas sobre a História das Ideias Ocidentais (dentre as quais saliento, especificamente, a História da Filosofia,  a História da Teologia Cristã, e a História do Pensamento Político) e sobre a História da Igreja Cristã, como na condição de alguém que se interessa, há muito tempo, pela Historiografia e Filosofia da História, desde que dei um curso sobre o assunto no Pomona College, na Califórnia, nos idos de 1973.

Na verdade, já havia me preocupado com a questão da Historiografia e da Filosofia da História, especialmente quando aplicada à História das Ideias, antes, nos anos de 1970-1972, quando escrevi minha Tese de Doutoramento sobre David Hume, filósofo escocês do Século 18 (1711-1776). Minha tese era uma tese histórica, dentro da História da Filosofia e da História do Pensamento Cristão. Seu título foi: David Hume’s Philosophical Critique of Theology and its Significance for the History of Christian Thought. Preocupei-me, na ocasião, embora o produto de minha preocupação não tenha cabido nos limites já dilatados da tese (que teve 615 páginas e dificilmente comportaria mais algumas sem abusar da paciência dos distintos membros da banca, William W. Bartley, III, Orientador, Wilfrid S. Sellars, Richard M. Gale, Joseph Kemp e George Kehm), com a distinção entre “História Interna” e “História Externa”. Para os que favorecem a primeira, a História das Ideias não deve sair de dentro do universo das ideias, procurando apenas descobrir apenas como determinadas ideias surgiram, a partir de outras ideias, como determinadas ideias influenciaram outras, modificando-as, etc. Para os que favorecem a História Externa, a História das Ideias deve procurar descobrir as raízes de determinadas ideias não em outras ideias, mas em condições sociais, políticas e econômicas, e deve procurar investigar como determinadas condições sociais, políticas e econômicas condicionam o mundo das ideias, influenciando-o para que mude nesta ou naquela direção [3].

Voltando à questão da Reforma Protestante, mais especificamente, da Reforma Luterana.

Não resta dúvida de que, inicial e originalmente, o que desencadeou a Reforma foi um conjunto de questões religiosas, como, por exemplo, a questão das Indulgências, que, por sua vez, está ligada à questão da chamada Justificação (a questão da Salvação – “que hei de fazer para herdar a vida eterna?”). No processo, visto que  a venda das Indulgências havia sido autorizada pelo Papa, foi levantada a questão da autoridade: que autoridade tem o Papa para autorizar uma medida dessas, para decidir como a Escritura deve ser interpretada, para recorrer à Tradição caso não consiga validar uma iniciativa como a venda de Indulgências por apelo à Escritura, etc.

É evidente, porém, que precisa ser explicado por que é que a questão das Indulgências acabou por ser levantada na Alemanha e não em algum outro local, e por que, uma vez levantada, deslanchou pelo Sacro Império Romano (que era um Império Germânico) e esparramou da área religiosa para a área política, em vez de ficar contida num ambiente puramente teológico ou eclesiástico. Para responder a essas questões é preciso entender o papel que exerciam na chamada Cristandade a Igreja Romana (com sede na Itália) e o Império Germânico (com sede na Alemanha), bem como os conflitos já existentes, desde o início do Sacro Império Romano, no ano 800, entre a Igreja e o Império (como, por exemplo, a chamada Controvérsia da Investidura, entre outras.

Parte da rivalidade política entre a Igreja e o Império se devia a questões econômicas: a Igreja impunha taxas, impostos e dízimos aos governos e às populações, o que fazia com que boa parte dos recursos financeiros gerados localmente, dentro do Império, na Alemanha, fossem desviados para fora dele, para a Igreja, em Roma.

Para agravar todas essas questões, religiosas, políticas e econômicas, havia uma questão cultural (que extrapolava a dimensão religiosa, que claramente é cultural): os italianos consideram o berço da civilização europeia, em decorrência da primazia da República Romana e, depois, do Império Romano sobre as demais regiões europeias. Especialmente depois da invasão dos povos germânicos (que eram chamados de bárbaros, não só por não serem romanos, mas, também, por serem portadores de usos e costumes considerados primitivos pelos italianos) que resultou na queda do Império Romano no Ocidente, criou-se uma grande rivalidade entre Italianos e Germânicos (em especial os Alemães) e um sentimento de nítida superioridade, por parte dos Italianos, em relação aos Alemães.

Em suma: a questão das causas da Reforma envolve todas essas dimensões, mesmo que tenha a Reforma tenha surgido a partir de uma questão claramente religiosa. Como bem assinala Peter Marshall, a divisão desse complexo de questões em questões religiosas, sociais, políticas, econômicas, e culturais (num sentido que extrapola a dimensão religiosa, que é cultural) é inegavelmente artificial. A vida humana não é compartimentalizada: ela é um todo, mesmo que, para fins de análise, seja frequentemente conveniente diferenciar esses aspectos.

Futuramente as causas aludidas, e outras, serão discutidas em mais detalhe.

NOTAS

[1] Yale University Press, New Haven, 2017.

[2] P. vii.

[3] Vide, por exemplo, a discussão interessante, se bem mais no contexto da Filosofia da Ciência do que da Filosofia da História, em Stephen Toulmin, Human Understanding: The Collective Use and Evolution of Concepts (Princeton University Press, Princeton, 1972), pp. 253-260, 300-308.

Em Salto, 5 de Junho de 2017.

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