Lutero, da Dieta de Worms ao Casamento (26/04/1521 a 13/06/1525)

Os Quatro Anni Horribili de Lutero – até o seu Casamento

Depois da bonança, vem a tempestade… Com Lutero foi mais ou menos assim. Depois dos três anos e meio em que ele demonstrou grande criatividade e coragem e alcançou fama e notoriedade, seus “anos dourados”, quase se pode dizer, vieram os seus “anni horribili”, aqueles dos quais Lutero poderia bem ter dito, como sugere o autor de Eclesiastes, que “não teve neles contentamento” – embora ainda fosse, ao final deles, quando se casou, relativamente, jovem, pelos padrões de hoje. (A referência é, naturalmente, a Eclesiastes 12:1: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: não tenho neles contentamento”. Lutero, que nasceu em 10 de Novembro de 1483 [embora alguns historiadores achem que foi em 1484], tinha quase 42 anos quando se casou (13/06/1525). [Certamente mais do que 40, mesmo que tenha nascido em 1484].)

Esse quadriênio começa com sua condenação na Dieta de Worms, em 26 de Abril de 1541, que o tornou, além de herege e excomungado, um fora da lei, banido de sua própria terra. Termina com seu casamento, que inaugura uma nova fase, esta razoavelmente boa, de sua vida – e, segundo alguns autores, entre os quais destaco Scott H. Hendrix, no seu magnífico Martin Luther: Visionary Reformer (Yale University Press, New Haven, 2015, 2016), uma nova fase da Reforma Luterana, que deixou de ser algo que tentava acontecer “de baixo para cima” e passou a ser algo que aconteceu “de cima para baixo” (vide pp.155, 173 da edição em paperback de 2016).

No meio desse quadriênio aconteceram as seguintes coisas ruins para Lutero:

  • Ele ficou virtualmente preso, durante um pouco mais de dez meses, até 6 de Março de 1522, no Castelo de Wartburgo, do Príncipe Eleitor da Soxônia, Frederico, “O Sábio”, que considerou seu dever proteger, escondendo-o, o mais famoso professor de sua recém criada (em 1502) Universidade de Wittenberg, que colocava no mapa a minúscula cidade de pouco mais de dois mil habitantes;
  • Ele viu sua liderança sobre o movimento que hoje carrega o seu nome enfraquecer, devido à sua ausência física, e em decorrência da “ocupação do vácuo” por alguns de seus melhores amigos e colegas, como Karlstadt e Melanchthon, que cresceram de importância;
  • Ele viu, sob a liderança de Karlstadt e de , as reformas que vinham sendo propostas e discutidas, serem implantadas na prática em Wittenberg, de uma maneira que lhe apareceu açodada e que preocupou bastante as autoridades civis de Wittenberg, até mesmo o próprio Príncipe;
  • Ele percebeu o risco de que a liderança mais ampla de seu movimento, fora de Wittenberg, fosse assumida, não por reformadores, mas por reais revolucionários, como Thomas Münzer e, como ele temia, seu próprio amigo Karlstadt;
  • Ele, concluindo que os perigos pareciam suficientemente fortes, arriscou-se a sair do esconderijo, contra a vontade do Príncipe, e voltar para Wittenberg, onde conseguiu assumir controle dos eventos, voltando atrás no que havia sido feito, mas com sério prejuízo para sua reputação e tranquilidade;
  • Ele viu o perigo inominável de a reforma religiosa se tornar uma reforma político-revolucionária tornar-se realidade, com a Revolta dos Camponeses, orquestrada em 1524 e realizada em 1525;
  • Ele precisou revelar ao mundo a sua face conservadora, mostrando que estava aliado com as lideranças políticas alemãs, contra as forças mais radicais e revolucionárias, identificadas com o povo, mostrando ser um reformador conservador mais do que um revolucionário (coroa que, posteriormente, os marxistas colocaram na cabeça de Thomas Münzer);
  • Ele viu, ao final do período, seu protetor, Frederico, “O Sábio”, falecer (05/05/1525), deixando, de certo modo, uma incógnita para o futuro de Lutero, como reformador;
  • Em compensação, durante esses quatro anos, os seus “anni horribili”, Lutero, diante das dificuldades e mesmo dos revezes que enfrentou, precisou reconsiderar, ainda que de forma gradual, com avanços e recuos: sua identidade (eu ainda sou católico? sou ainda um monge? meus votos de obediência, pobreza e castidade ainda valem? se valem, a quem é devida minha obediência?); seu projeto de vida ou sua missão (o que estou tentando alcançar é apenas uma correção de alguns erros da Igreja Católica, uma reforma da Igreja Católica, ou uma revolução, com a criação de uma nova Igreja?); seus métodos: dependendo da resposta a esta última questão, quais as melhores táticas? etc.);
  • No processo de construção dessa nova identidade e dessa nova missão, Lutero, com a passagem do tempo, se convenceu de que havia sido escolhido por Deus para um papel único, e que sua interpretação da Bíblia, nas questões essenciais que ele considerava o núcleo central do Evangelho, era a única verdadeira, de modo que passou a perceber aqueles que discordavam dele, se não como inimigos, como adversários, algo que aconteceu com Karlstadt, com Zuínglio, com os Anabatistas, e até mesmo com Melanchthon (em alguns casos), perdendo a oportunidade de fazer uma Reforma Protestante unificada em favor de uma Reforma Luterana [1].

No devido tempo, virão artigos no blog sobre cada um desses aspectos.

NOTA

[1] Eis o que diz Scott H. Hendrix, em Martin Luther: Visionary Reformer (Yale University Press, New Haven, 2015, 2016), pp.263-264 (tradução minha): “A saúde de Lutero estava em deterioração na parte final da década de 30. Talvez seja isso que o tenha levado a exacerbar as críticas que fazia aos seus adversários. Os únicos adversários ativos que ele realmente tinha, nessa época, eram governantes e teólogos católicos. Mas, para Lutero, ‘adversário’ era qualquer pessoa ou grupo de pessoas que não cooperava com sua missão de restaurar um Cristianismo purificado na Alemanha.” [Ênfase acrescentada.]

Em São Paulo, 11 de Junho de 2017.

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