Lutero, Erasmo e Karlstadt. 2 – Erasmo: A Resposta da Direita

[Leia primeiro a parte anterior, I – Introdução; a seguir vem a parte subsequente, III – Karlstadt (mas ainda vai demorar um pouquinho)]

2 – Erasmo: A Resposta da Direita

“Oh, Erasmo! fique deste lado, para que
Deus possa se orgulhar de você!!!” 
[Albrecht Dürer, pintor, apelando a Erasmo
para que este fique do lado protestante * ]

Apesar de estar em meio a um grupo de gigantes, Erasmo foi a estrela maior do elenco do Renascença dos séculos 14 e 15, movimento que é unanimemente considerado uma etapa indispensável na preparação da Reforma Protestante.

É verdade que, com o correr do tempo, o Renascimento acabou por ser ofuscado pelas Reformas Religiosas do Século 16, pelo menos em ambientes em que a religião e a teologia são consideradas mais fundamentais do que as humanidades e a filosofia [1].

Mas, apesar de ser humanista e filósofo, e de ter sido muito crítico da Igreja Católica, ridicularizando mesmo algumas de suas crenças e características, Erasmo nunca deixou de ser católico, vindo a morrer nessa condição. Ele queria depurar a sua igreja de seus principais erros e exageros maiores, mas não queria correr o risco de entrar em conflito com ela, muito menos de vir a dividi-la — ou de apoiar quem estivesse disposto a fazer isso.

É por essa razão que o coloco à direita de Lutero [2].

É preciso deixar claro que, mesmo dentre os humanistas da Renascença, Erasmo era conservador. Entre outras razões para dizer isso está o fato de que, em meio a um bando de céticos, ele estava disposto a continuar firme no seio da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Que apregoava, aos sete ventos, que todos somos pecadores, e que, sem pecado, só a família divina: Deus o Pai, Jesus Cristo, seu Filho, e Maria, Mãe de Jesus — que, sendo Jesus Cristo tido como Deus, era, inegavelmente, Mãe de Deus.

Em contraste, Giovanni Pico della Mirandola, nobre italiano, nascido três anos e meio antes de Erasmo (24/02/1463), mas que morreu novo, com trinta e um anos (17/11/1494), bem antes de Erasmo, escreveu, em 1486, oito anos antes de morrer, quando mal tinha vinte e três anos, uma magnífica ode à dignidade do ser humano, Oratio de Hominis Dignitate [3], até hoje considerada uma obra prima da Renascença Italiana. Esse é um livro que exalta o ser humano – que, na teologia cristã, sempre foi rebaixado, sempre ficou por baixo, para que apenas Deus pudesse ser exaltado…

Erasmo não exaltava o ser humano. Ele tinha uma visão bastante realista de sua natureza e de seu potencial, tanto para o ridículo como para o mal — mas, também, para o bem (mesmo que em quantidade menor). Por isso não rebaixou o ser humano como o fizeram Lutero, Calvino e os demais reformadores protestantes, que afirmaram que a natureza humana, em decorrência do “pecado original” de nossos “primeiros pais”, havia sido “totalmente corrompida, degenerada, depravada”, não lhe sobrando nada, absolutamente nada, que pudesse permitir ao ser humano levantar-se, por sua própria iniciativa e com suas próprias forças, de seu estado “caído”. Sem o apoio da graça divina, o ser humano iria torrar no fogo do Inferno para todo sempre, pois nunca conseguiria fazer algo de bom, ou que representasse sequer um sinal de que estava disposto a buscar ou mesmo a aceitar algum tipo de redenção da parte de Deus.  Erasmo ficava no meio entre Giovanni Pico della Mirandola, de um lado, e Martinho Lutero e João Calvino, do outro. Para ele a “queda original” do ser humano, relatada, de forma realística ou meramente simbólica, no início do livro de Gênesis, certamente causou estrago. Para ele, ninguém que vivesse no mundo em que ele vivia, um mundo de Bórgias e Médicis, de papas guerreiros, de papas que deixavam o Pontificado como herança para seus filhos bastardos, ninguém poderia deixar de reconhecer a maldade natural do ser humano – exceto, talvez, inicialmente, um quase menino, nobre, filho caçula de gente rica, vivendo no Castelo de Mirandola, com o nome de Giovanni Pico… (Mas mesmo este, no fim de sua curta vida, veio experimentar o que representa ser acusado de heresia e ser perseguido pela Santa Mãe Igreja, por supostos erros contidos em sua Oratio e especialmente um outro livro, chamado 900 Teses…) [4]. Enfim, para Erasmo a introdução do pecado no mundo realmente fez estrago na natureza humana: mas não corrompeu, degenerou, e depravou totalmente essa natureza. Algo de bom permaneceu incontaminado que permitiu, e continua a permitir, ao ser humano, em alguns momentos, reconhecer, e mesmo desejar, e até mesmo fazer o bem, embora somente rara e excepcionalmente ele venha a chegar a picos (sem trocadilho) de grandeza, de heroísmo, de bondade, de generosidade.

Foi sua crença nesse resquício incontaminado da natureza humana que colocou Erasmo em linha de choque com Lutero. Diante daquilo que lhe pareciam ser os exageros de Lutero no rebaixamento humano, Erasmo, instigado por alguns de seus amigos humanistas, que, talvez, ainda tivessem a ilusão de que conseguiriam convencer Lutero a não exagerar tanto o nível de contaminação da natureza humana pelo pecado, escreveu, em 1525, De Libero Arbitrio [5].

Nesse livro Erasmo defendeu, de forma competente e sofisticada, aquela que era a posição da Igreja Católica acerca da questão. Afinal de contas, ele era mais do que um simples católico, era um sacerdote, pois havia sido ordenado meio tardiamente, aos vinte e cinco anos de idade.

A Igreja Católica sempre acreditou que o ser humano precisa desejar a salvação e tomar a iniciativa de fazer alguma coisa para obtê-la – até mesmo para merecê-la… — e que tinha condições naturais de fazer isso. O que tinha de fazer não era nada muito complicado, pois o mais difícil Jesus Cristo já fez. Coisas simples, como deixar-se batizar; tentar viver uma vida distante do pecado; frequentar a Igreja; confessar os pecados; cumprir as penitências determinadas; participar da missa e da eucaristia; receber os demais sacramentos, conforme a ocasião; fazer boas obras; não sucumbir a heresias… Erasmo era, com a Igreja Católica, algo sinergista — ele acreditava que, na redenção do ser humano, Deus e o ser humano precisavam cooperar, cada um com aquilo que lhe cabia. Talvez ele fosse minimamente sinergista: segundo ele, o ser humano precisa, pelo menos, e isto por iniciativa própria e com suas próprias forças, querer ser salvo, buscar a salvação e ser capaz de aceitar, pela fé, o dom da salvação, operada por Jesus Cristo na cruz, e que Deus lhe oferta. Essa é a cooperação mínima que o ser humano pode e precisa trazer ao processo de sua redenção. Ela é representada pela fé – mas a fé, no entendimento de Erasmo, não pode ser, ela própria, um dom de Deus ao ser humano, como pretendia Lutero (e, depois, Calvino). Se o ser humano não tem participação nenhuma no processo de sua redenção, como pretendia Lutero (e, depois dele, Calvino), e tudo é monergística e unilateralmente realizado por Deus (Deus faz tudo sozinho), não há como escapar da doutrina da predestinação – pior ainda, da doutrina da dupla predestinação: Deus, unilateralmente, e com base exclusivamente em sua vontade e decisão, ambas soberanas e incondicionais, sem levar em conta, em sua onisciência, o que o ser humano faria, como ele viveria, etc., resolveu decretar que concederia, como dom e presente imerecido, a fé a alguns e não a concederia a outros, elegendo os primeiros para a salvação e condenando os demais para o tormento eterno. Isso Erasmo não conseguia engolir. Sua inteligência, combinada com seu senso de moralidade e justiça, o impediam de aceitar essa doutrina. Para ele, a moralidade e a justiça existem como parte de uma lei natural à qual o próprio Deus se submete. As coisas não são certas ou justas simplesmente porque Deus as aprova ou realiza, nem erradas e injustas porque ele as reprova e proíbe, e se nega a realizá-las. Elas são certas e justas, ou erradas e injustas, em função da natureza das coisas, inclusive da natureza humana, não do arbítrio divino… Por isso Deus faz as coisas certas e justas e deixa de fazer as erradas e injustas: porque é isso que elas são, na realidade — não porque ele, arbitrariamente, em função de seu poder absoluto e de sua total soberania, escolheu fazer umas e deixar de fazer outras.

Em outras palavras, para Erasmo não bastava simplesmente não fazer nada e ser escolhido (elegido, eleito) por Deus para ser salvo… Ele tinha de contribuir alguma coisa, por menor que fosse, ainda que fosse apenas a sua fraca e hesitante fé, ainda que fosse apenas dizer (mas por iniciativa própria e pelas próprias forças, sem qualquer interferência divina), “eu creio, mas ajuda-me em minha dificuldade para crer…” (Marcos 9:24 [6] ). Para Lutero, porém, com sua intransigência, qualquer concessão neste caso implicava sucumbir à heresia pelagiana, ou, pelo menos, semipelagiana… Lutero, apesar de professar aceitar apenas a Bíblia como autoridade (Sola Scriptura), era, nesta questão, mais agostiniano do que paulino, mas Traditio do que Scriptura… Não foi à toa que sua descoberta teológica se deu em decorrência dos anos vividos num mosteiro agostiniano. Não é à toa de que, para ele, os escritos de Agostinho valiam basicamente a mesma coisa do que os bíblicos…

Para quem conhece minimamente o temperamento de Lutero, não é difícil imaginar qual foi a sua reação à crítica erasmiana. Seus amigos tentaram contê-lo, não deixar que ele respondesse no auge da indignação e da raiva, e ele até esperou bastante, mas quando a resposta veio, foi acachapante. Não acachapante no sentido de que Lutero tivesse argumentos que destruíssem os de Erasmo, mas acachapante no tom, na linguagem, no recurso aos mais baixos impropérios para desmoralizar aquele que, um dia, o havia admirado e defendido, e que até ele havia, em termos, admirado um pouco.

Gordon Rupp, em sua Introdução ao texto de Erasmo na coleção Library of Christian Classics, já mencionada, em nota, afirma algo importante que me sinto na obrigação de citar aqui. Diz ele:

“É verdade que em grandes controvérsias históricas . . . não prestamos nenhum serviço a um lado diminuindo os méritos do outro ou o denegrindo, pois, ao fazer isso, perderemos de vista a importância humana, e mesmo as sutilezas teológicas, do encontro” [7].

Acho importante citar essa passagem, porque minhas observações finais no parágrafo anterior poderiam sugerir que eu estaria “diminuindo os méritos ou denegrindo” a postura e a posição de Lutero. No entanto, a frase de Rupp tem continuidade. Prossegue ele:

“Não iluminamos, mas obscurecemos a verdade, quando subestimamos, seja a fé, seja a competência teológica de Erasmo” [8].

O seja, a crítica “preemptiva” [9] de Rupp é dirigida aos partidários e defensores de Lutero, que em geral acusam Erasmo de não ter muita fé (não ser suficientemente “crente”) e/ou de ter uma teologia meio rala, sem a sustância que eles encontram na teologia de Lutero… [10]

Que a linguagem de Lutero é rude e mesmo xucra não resta dúvida. Mas isto não afetaria a qualidade dos argumentos dele – se ele realmente os tivesse… O próprio Rupp, que é um reconhecido “Luther scholar”, admite que Lutero teve melhor argumentação em outros debates do que conseguiu amealhar neste – embora o fato de Rupp ser metodista pode tê-lo feito mais favorável à argumentação de Erasmo, ressalvado o fato de que ele, por sua vez, também não elogia especialmente a argumentação de Erasmo [11]. Mas ele afirma:

“Erasmo se esforçou ao máximo para ser ‘urbane’ [civil, educado] com Lutero. . . . Erasmo nunca negou o bem que havia em Lutero, embora deplorasse bastante o seu espírito violento. E Erasmo nunca deixou de criticar o fanatismo e a intolerância também dos inimigos de Lutero”. [12]

Acerca de Lutero, Rupp diz o seguinte:

“Em suas cartas e na fofocaria que estava presente em suas Conversas à Mesa, Lutero nunca deixou de despejar desdém em cima de Erasmo, acusando-o de tratamento superficial da verdade, de tirador de sarro na religião, e de ser, no fundo, apenas um descrente” [13].

Diante das enormes pressões que Erasmo recebeu dos seus amigos católicos para provar que não era luterano, criticando Lutero publicamente em um livro, pressões estas que estão explicitadas nas notas deste trabalho, Erasmo acabou sucumbindo. De Libero Arbitrio é sua crítica a Lutero. O tema da crítica foi sabiamente escolhido. É um tema que, para os menos enfronhados nos detalhes do pensamento de Lutero, não parece central. Parece ser apenas uma questão secundária. Mas Erasmo era bom teólogo. A questão que ele abordou era uma questão central que, na superfície, ou de longe, parece ser periférica… E era uma questão acerca da qual Erasmo estava clara e conscientemente do lado da igreja Católica, sem precisar mentir ou mesmo fingir. Sua crítica é absolutamente honesta.

Eis o que diz Johan Huizinga, em seu monumental Erasmus and the Age of Reformation, sobre a escolha de Erasmo de um tema para, focado nele, dirigir sua tão esperada crítica a Lutero:

“Será que Erasmo era qualificado para discutir esse tipo de assunto com Lutero? Em conformidade com seu método e seu evidente propósito de vindicar a autoridade e a tradição da Igreja, Erasmo, em seu tratado, pode desenvolver argumentos que encontram eco na Escritura, que os doutores da Igreja afirmam, que os filósofos seculares provam, e que a razão humana testifica na consciência de cada pessoa: o fato de que ela é livre. Se se abre mão da liberdade humana, tanto a justiça como a misericórdia de Deus perdem o significado. Qual seria o sentido dos ensinos, das reprimendas, das admoestações da Escritura (vide Timóteo iii), se tudo acontece, no que diz respeito à salvação, segundo uma necessidade imperiosa e inevitável? Qual o sentido de louvar a obediência à Palavra de Deus, se, no tocante à salvação, no que diz respeito a fazer o bem ou fazer o mal, somos meros instrumentos nas mãos de Deus, como um martelo o é na mão do carpinteiro? Mesmo que fosse esse o caso, seria perigoso revelar o fato à multidão, pois a moralidade é dependente, acima de tudo, da consciência da liberdade” [14].

A resposta de Lutero a Erasmo recebeu o nome de De Servo Arbítrio [15]. Veio cerca de um ano depois da obra original  de Erasmo. Ao ler De Servo Arbitrio, Erasmo respondeu a Lutero, com outro livro, com o título Hyperaspites [16], no qual ele veio a extrapolar um pouco. Ninguém é de ferro. Felizmente, Lutero não se sentiu obrigado a respondê-lo dessa vez. Porque, apesar do primeiro livro, De Libero Arbitrio, ser um livro extremamente cortês, para os termos do século 16, a resposta de Lutero, De Servo Arbitrio, não foi. Lutero sentiu o golpe e, ao responder, revelou toda a revolta e o desprezo que a obra de Erasmo produziu nele, especialmente por revelar que Erasmo tinha, finalmente, escolhido o seu lado [17].

o O o

Mas qual foi exatamente o lado que Erasmo escolheu?

Há mais de uma forma de responder essa pergunta. Vou optar pela minha, naturalmente.

Na superfície, a resposta evidente é que ele escolheu o lado da Igreja Católica, não o de Lutero. Mas o que isso implica?

Significa, em primeiro lugar, que, de certo modo, e até certo ponto, ao discordar do alemão Lutero, Erasmo deixou claro que possivelmente concordaria com um austríaco, que escreveu quase quinhentos anos depois, de forma entrecortada, quase “adagial”, como Erasmo também gostava de escrever: Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Este, quase na conclusão do seu famoso livro, Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1921 e, em 1922, com o apoio de Bertrand Russell, traduzido para Inglês e tornado famoso, pois Russell era então considerado o maior filosófico em língua inglesa da época, disse duas coisas extremamente importantes, no original alemão. A primeira dessas coisas ele disse na última frase (ou proposição) do livro, que carrega o número 7 (sim, os enunciados de Wittgenstein nesse livro são todos enumerados):

Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen”. [18]

Traduzido para o Português, em linguagem coloquial, isto quer dizer que, acerca daquelas coisas sobre as quais a gente não tem condições de falar, a gente deve ficar quieto. [E, como disse um outro, com um senso de humor meio britânico, no qual muitos não acham tanta graça, se a gente não tem condições de falar sobre alguma coisa, não deve também tentar assobiar sobre ela…].

A outra coisa importante que Wittgenstein disse, algumas proposições antes, a de número 6.522,  também de forma epigramática, foi:

Es gibt allerdings Unausprechliches. Dies zeigt sich, es ist das Mystiche.[19]

Traduzido para o Português, novamente em linguagem coloquial, isto quer dizer que existem coisas que não podem ser expressas através da linguagem, em cujo caso só nos resta aponta-las, pois constituem a dimensão mística.

As afirmações de Erasmo que têm eco nessas proposições de Wittgenstein são:

“É uma verdade evidente que não podemos falar de Deus a não ser com palavras, sempre inadequadas. .  . . [Isso quer dizer que a solução de] muitos problemas deve ser transferida, não para um Concílio Ecumênico, mas para o dia em que, tendo sido removido o espelho e a escuridão sido substituída por luz, seremos capazes de ver Deus face a face.  . . .   [Enquanto isso,]  quem é que está livre de erro?  .  .  .  Há, na religião, certos santuários em que Deus não quis que penetrássemos com maior profundidade.” [20]

Essas passagens remetem a Paulo, em 1 Coríntios 13:12: “O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, assim como sou conhecido por Deus” (NTLH). Calvino também as ecoa nas Institutas, ao tratar da predestinação [21].

A lição a tirar é que há assuntos que a gente deveria reconhecer como mistérios (ou místicos), que, talvez, possam ser até ser objetos parciais de nossa experiência, e que possivelmente podem ser apontados, quiçá até vistos, mas que não podem ser exprimíveis com as ferramentas intelectuais de que dispomos. Eles constituem – o Latim tem o termo – o reino do inefável, e estão além de nossa capacidade. Mas sendo o ser humano o que é, ele tenta ir além do que lhe é permitido (não foi esse o seu pecado original?) e tenta falar daquilo acerca do qual nem assobiar deveria…

Erasmo ao dizer isso parece admitir que está discutindo essas questões complicadas da teologia contra a sua vontade, pois a gente deveria deixa-las de lado. Em relação a ela, quando tentamos dizer o que não temos condição de dizer, o inevitável é o erro, que, por sinal, está por todo lado, não de um lado só…  (“Quem é que está livre de erro?”). Uma fonte frequente de erro é tentar saber mais sobre um assunto do que é possível conhecer sobre ele.

Um pouco de ceticismo, uma certa dose de agnosticismo, e uma boa dose modéstia, enfim, não fazem mal a ninguém… Este o teor principal da primeira consideração acerca do lado que Erasmo escolheu.

Com esta primeira observação chegamos à segunda consideração acerca do lado que Erasmo escolheu. Além de ser um lado caracterizado, epistemicamente, por doses não insignificativas de ceticismo, agnosticismo e modéstia, é um lado que privilegia a prática da piedade e da moralidade mais do que o conhecimento e as nuances teóricas da doutrina. Assim era, para Erasmo, a religião de Jesus, que era imperativo imitar [22]. Uma religião simples, focada na prática religiosa não ritualizada, dentro da igreja e na vida pessoal, e na ação moral no âmbito da sociedade, em favor do próximo necessitado. A formação que Erasmo recebeu das mãos dos Irmãos da Vida Comum (Brethren of the Common Life) enfatizava isso (como se salientou na nota). Essa formação também ensinou-lhe que os rituais envolvidos no culto e na prática diária da piedade podem rapidamente perder o significado e o sentido e se tornar hábitos, comportamento automatizados – e se misturar com crenças supersticiosas. Repetir de cor e automaticamente as orações, sem refletir em seu significado e sentido espiritual é adotar um ritual estéril – parecido com o que adotou Maria das Dores no conto de Monteiro Lobato…

Com isso chegamos à terceira consideração. Por mais simpatia que ele tivesse por algumas das ideias de Lutero, que eram muito próximas das suas, Erasmo selecionou uma questão para debater com Lutero, em que a maioria absoluta dos Pais da Igreja e dos Doutores da Igreja, bem como dos Papas, Cardeais, Arcebispos, Bispos, e do Clero em geral (Padres, Monges, etc.), com a importante exceção de Agostinho, bispo de Hipona (354-430), estava do lado dele. Agostinho estava do lado de Lutero. Tratava-se da questão do livre arbítrio. No tocante a Concílios, aqueles em que o Pelagianismo e o Semipelagianismo foram condenados, evidentemente davam suporte a Agostinho e a Lutero [23].

A Igreja Católica, portanto, estava do lado de Erasmo, e este correspondeu ao apoio, defendendo a Igreja. Para ele, a luta de Lutero era a luta de um indivíduo contra toda uma instituição com uma longa história – ressalvada, em relação a essa questão, a posição de Agostinho e dos dois concílios mencionados na nota. Para Erasmo, que epistemicamente, era inclinado ao ceticismo e ao agnosticismo, era difícil de crer que um indivíduo, a bem dizer sozinho, pudesse estar certo, em relação ao livre arbítrio, contra uma multidão de intelectuais de primeiro nível dentro da Igreja. Chega-se à verdade analisando, discutindo, debatendo, apresentando argumentos, considerando seriamente contra-argumentos, etc., não tendo uma inspiração súbita sozinha numa cela do convento… Mesmo que Lutero defendesse algumas teses com as quais Erasmo estava de acordo, mesmo nesses casos Erasmo queria depurar os erros da Igreja, removê-los, “conserta-la”, melhora-la, mas mantendo-a unida, sem dividi-la. Erasmo, que era amigo pessoal de três Papas da época da Reforma, não se conformava com a forma desrespeitosa com que Lutero se referia não só à Igreja, mas a seus oficiais, em especial o Papa, chamado, pela Igreja, de Sua Santidade…

Notas

[*] Apud Carlos M. N. Eire, Reformations: The Early Modern Workd, 1450-1650 (Yale University Press, New Haven, 2016), p.188.

[**] Apud Carlos M. N. Eire, Reformations: The Early Modern Workd, 1450-1650 (Yale University Press, New Haven, 2016), p.188.

[1] Uma das biografias mais interessantes e simpáticas de Erasmo é a escrita por Roland H. Bainton, já mencionada na Introdução. Mais eis os dados novamente: Roland H. Bainton, Erasmus of Christendom (Charles Scribner’s Sons, New York, 1969). O texto é uma expansão de cinco palestras que Bainton deu no Princeton Theological Seminary, em Princeton, NJ, em 1967 – ano em que eu cheguei aos Estados Unidos para fazer meu Mestrado em Teologia.

[2] Erasmo era admirado e respeitado por seus amigos humanistas por ser um excepcional homem de letras, e por ter algumas das importantes virtudes humanistas: era sensível, tolerante, moderado, inteligente, bem mais cético do que crédulo, etc., além de ser talvez o maior especialista em letras, as letras importantes no contexto: Grego, Latim, e, para um teólogo, Hebraico… Era admirado e respeitado também por pessoas na Cúria Romana, até mesmo pelo Papa (foi amigo pessoal de três deles), por sua fé cristã, por sua capacidade de escrever de forma agradável e convincente, e por suas habilidades em mediar conflitos: era justo, paciente, sabia ouvir, não gostava de falar demais, não era apelativo (embora fosse irônico), etc…. Mas os que o admiravam e respeitavam, de um lado e de outro, o faziam, não de forma incondicional, mas, sim, cum grano salis, exatamente por saber, cada um dos dois lados, que o outro também o respeitava… Assim Erasmo se via muitas vezes entre fogo cruzado amigo, por não ser capaz de agradar plenamente nem a gregos, nem a troianos. Vide, por exemplo, Henry Kamen, The Rise of Toleration (McGraw-Hill, New York, 1967), pp.24-29. Por iniciativa própria, e por insistência de amigos, de ambos os lados (humanistas e católicos), Erasmo procurou intervir, junto ao próprio Lutero, junto ao Príncipe Eleitor Frederico, “O Sábio”, protetor de Lutero, junto ao próprio Imperador Carlos V, ao qual também tinha acesso direto, bem como junto ao Papa Leão X, ao qual igualmente tinha acesso direto, e aos seus assessores, como Girolamo Aleander, Cardeal e Núncio Papal junto ao Sacro Império Romano [figura central no mais famoso filme acerca de Lutero, o em que este é representado por Joseph Fiennes], Jakob von Straten, representante da temida Inquisição junto à Universidade de Colônia, no Sacro Império Romano, etc., tentando fazer com que três resultados, que ele considerava extremamente indesejáveis, fossem evitados: de um lado, que Lutero fosse preso e executado; de outro, que a Igreja se dividisse, se tornasse duas ou mais; e, pior de tudo, que as diversas da regiões da Alemanha entrassem em guerra generalizada, uma parte tentando derrotar militarmente a outra. Conseguiu evitar o primeiro resultado, mas não o segundo, embora a divisão só tenha realmente se consumado depois de sua morte. O terceiro resultado foi evitado até sua morte. A guerra só irrompeu em 1618 (a Guerra dos Trinta Anos, que durou até 1648). Compare-se, a esse respeito, Bainton, op.cit., Capítulo VII, pp.151-171. Compare-se a esse respeito também a Introdução do Editor Mathew Spinka ao livro Enchiridion, de Erasmo, no volume XIV, com o título Advocates of Reform: From Wyclif to Erasmus, da coleção, em 26 volumes, Library of Christian Classics (The Westminster Press, Philadelphia, 1953 (data desse volume), em que Spinka avalia com sensatez e isenção os esforços de Erasmo para evitar o que ele considerava o pior no confronto entre Lutero e a Igreja: “No tocante à atitude de Erasmo para com a Reforma, em particular para com Lutero, é preciso que o exame seja cuidadoso. Por temperamento, e por causa do treinamento e condicionamento que recebeu ao longo da vida inteira, Erasmo detestava se envolver em controvérsias públicas e ruidosas. Além disso, ele era muito sensível a críticas e sempre desejoso de elogios. Por isso, quando Lutero se tornou o campeão do movimento em favor da reforma da Igreja, Erasmo viu-se basicamente do lado de Lutero e de acordo com a maior parte de suas posições, embora, pessoalmente, preferisse ficar de fora da briga. Por outro lado, ele próprio continuou a fazer algo que sempre tinha feito, a saber, atacar os abusos que aconteciam dentro da Igreja, particularmente aqueles a quem ele chamava de ‘Fariseus’: os que teimosamente defendiam as superstições e os erros, mas o acusavam (a ele, Erasmo) de ter botado o ovo que, depois, Lutero veio a chocar. A posição de Erasmo era extremamente difícil, pois ele não podia, abertamente, patrocinar uma causa, nem a de um lado, nem a do outro. Mas, para tornar sua situação mais difícil, ele não podia, também, permanecer neutro sem se expor a censuras severas, tanto de um lado como do outro, por ser ‘morno’ ou indiferente, ou por preferir covardemente preservar sua própria segurança, com sacrifício de sua estatura moral. Contudo, havia muita coisa na Reforma de Lutero que Erasmo, em privado, apoiava entusiasticamente, pois ele sabia que, ‘se Lutero fosse derrotado, nem Deus nem os homens seriam capazes de aturar os monges’, e que, perecendo Lutero, uma grande parte daquilo que era verdade pura [e que era importante para ele, pessoal e profissionalmente] ficava em grande perigo. Contudo, à medida que o tempo foi passando, tanto Erasmo como Lutero perceberam que tinham diferenças básicas um com o outro, tanto em temperamento como em caráter. Erasmo, com sua notório prudência, não podia senão maravilhar-se diante da coragem intimorata do alemão, que parecia não se importar se vivia ou morria. Erasmo, apesar de sua crítica mordaz da Igreja e dos padres, e em especial do sistema monástico e da estrutura hierárquica, não tinha a menor inclinação para mártir, muito menos para cismático. . . . [Admitia que poderia até ser mártir, defendendo a Cristo, mas não defendendo Lutero.] Além disso, o linguajar violento e robusto de Lutero, que chegava às raias da insolência e ao desafio desrespeitoso às autoridades eclesiais, deixavam o delicado e prudente Erasmo escandalizado. . . . Apesar disso, ele não aprovava como o Papa Leão X estava lidando com Lutero, maltratando-o, e assim se viu obrigado, em algumas situações, a defender publicamente algumas reformas propostas por Lutero. Não é de surpreender, que em sua autoimposta tarefa de pacificador, ele fosse visto como um Jano de duas faces, encontrando desfavor de ambos os lados! Os colegas seus na Universidade de Louvaina (depois chamada de Católica), que eram partidários ferrenhos do lado papal da briga, tentaram constrangê-lo a se declarar luterano, a menos que criasse coragem para publicamente atacar e condenar Lutero. Erasmo viu com clareza que não deveria se juntar, nem aos luteranos, nem aos ‘Fariseus’. Mas, intimamente, ele desejava que uma praga varresse do mapa os dois lados!” (pp.289-290. A tradução do Inglês é minha; ênfases acrescentadas). As Universidades de Colônia e de Louvânia, a primeira na Alemanha e a segunda nos Países Baixos, hoje na Bélgica, mas bastante próximas uma da outra, eram as duas universidades mais engajadas na luta em defesa da Igreja Católica e do Papa na primeira metade do século 16. Na verdade, na gestão de Maximiliano I e na de seu neto Carlos V, que sucedeu ao avô, frente ao Sacro Império Romano, a região de Bruxelas, na época a cidade mais importante dos Países Baixos, e que fica na região de Brabante, bem próxima de Louvaina e mesmo de Colônia, assumiu, na prática, o papel de sede administrativa do Império, que não tinha capital. Maximiliano I, Imperador Romano, da Casa dos Habsburgos austríacos, e avô de Carlos V, também Imperador Romano, este na época de Lutero, casou-se com Maria de Borgonha, nascida em Bruxelas, e herdeira da Dinastia de Borgonha, que assim se uniu com a Dinastia dos Habsburgos. Bruxelas era, portanto, a cidade da avó de Carlos V, não sendo de surpreender que ele a considerasse um dos seus locais de residência (junto com a residência na capital da Espanha). Passando parte do tempo ali, não é de surpreender também que a importância das Universidades de Louvaina e Colônia tenha crescido. Não havendo ainda Universidade Protestante, todas as universidades existentes até então eram, por assim dizer, Católicas. A Universidade de Wittenberg, onde Lutero trabalhou, criada por seu protetor, o Príncipe Eleitor Frederico, “O Sábio”, fundada em 1502, foi a primeira universidade europeia a ser criada sem a autorização e o beneplácito da Igreja. A propósito, voltando a Erasmo, e entrando na área das curiosidades, a tradução do livro de Erasmo ao qual está apensa a introdução de Spinka, mencionada atrás, o Enchiridion, é de autoria do meu querido ex-professor no Pittsburgh Theological Seminary, em Pittsburgh, PA, EUA, Ford Lewis Battles, que também é responsável pela principal tradução do Latim para o Inglês das Institutas de Calvino [John Calvin, Institutes of the Christian Religion (Em dois volumes, Vols.    e    da coleção, em 26 volumes, chamada Library of Christian Classics (The Westminister Press, Philadelphia, xxx). A tradução é do Latim Institutio Christianae Religionis; a última edição em Latim, que foi a traduzida nessa tradução, é de 1559; a primeira foi de 1536. Em um seminário semanal que Battles ministrava em Pittsburgh, e que durava o ano inteiro, nós, seus alunos, tivemos de fazer a exegese das Institutas, seção por seção. Para informação sobre as Institutas o seguinte artigo na Wikipedia US é importante: https://en.wikipedia.org/wiki/Institutes_of_the_Christian_Religion/.

[3] Traduzido para o Português como Oração sobre a Dignidade do Homem, o título em Inglês é Oration on the Dignity of Man. Vide na Wikipedia US https://en.wikipedia.org/wiki/Oration_on_the_Dignity_of_Man. A tradução que eu usei enquanto seminarista e que continuo a usar até hoje é da Library of Liberal Arts, editada pela Editora Bobbs-Merrill (Macmillan) de Chicago, Segunda Impressão, edição de Dezembro de 1965, coordenada por Paul J. W. Miller, com apoio de uma equipe de tradução. Na área das curiosidades, há, hoje, na Amazon, uma cópia dessa edição à venda por 500 dólares (18/06/2017).

[4]  https://en.wikipedia.org/wiki/Giovanni_Pico_della_Mirandola.

[5] Uma das melhores edições dos textos de Erasmo e de Lutero, com excelentes introduções, está na coleção de 26 volumes Library of Christian Classics, edição geral de John Baillie, John T. McNeill e Henry P. van Dusen, volume XVII, com título Luther and Erasmus: Free Will and Salvation (The Westminster Press, Philadelphia, 1969), E. Gordon Rupp et alius sendo o editor e tradutor do texto de Erasmo e Philip S. Watson et alius sendo o editor e tradutor do texto de Lutero.

[6] Vide o site Bible Hub, em http://biblehub.com/mark/9-24.htm, para conferir como as diversas traduções da Bíblia para o Inglês lidam com esse enigmático versículo bíblico…

[7] Op.cit., p.1.

[8] Op.cit., loc.cit.

[9] O termo “preemptivo” é uma adaptação do Inglês “preemptive”, que quer dizer (nas minhas palavras, sem olhar dicionário), ação de defesa, antes de desferido um ataque, feita com o intuito de impedi-lo ou de reduzir o seu impacto ou efeito. O Houaiss e o Aurélio não listam “preemptivo” mas listam “preempção”, substantivo do qual o adjetivo “preemptivo”, se existisse, seria derivado. Mas continuo acreditando que o adjetivo já deveria ter ganho direito de cidadania na língua pátria.

[10]   Erasmo faz referência, no início do seu livro, “àqueles que gritam a plenos pulmões que Lutero tem, em seu dedo mindinho, mais competência acadêmica do que Erasmo em seu corpo inteiro”. Op.cit., p.37. A razão pela qual a teologia de Erasmo era considerada pouco densa (“rala”) está no fato de que sua formação inicial foi fundamentada na espiritualidade e na prática dos chamados Irmãos da Vida Comum (Brethren of the Common Life), que seguiam uma piedade ou prática religiosa não-intelectualizada, e, por conseguinte, não doutrinária e não-dogmática, bem como não-ritualística, eminentemente ética e, ao mesmo tempo, prática mas voltada para dentro. Compare-se a Introdução de Matthew Spinka ao Enchiridion, já mencionada atrás (em uma nota), pp.281-282. Essa questão, inclusive com a referência a Erasmo, é discutida de passagem em meu artigo “Lutero, R. C. Sproul e Tota Scriptura”, neste blog, em  https://reformation.space/2017/06/16/lutero-r-c-sproul-e-tota-scriptura/.

[11] Compare-se a realmente impressionante minibiografia de E. Gordon Rupp no site Wesley House Cambridge, http://www.wesley.cam.ac.uk/about/staff/impact/e-gordon-rupp/.

[12] Op.cit., pp. 2 e 3.

[13] Op.cit., p. 2.

[14] Johan Huizinga, Erasmus and the Age of Reformation (Charles Scribner’s Sons, New York, 1924, Kindle Edition), p. 100 (da edição em e-book).

[15] O texto em Inglês está no Volume XVII da coleção Library of Christian Classics, já mencionado.

[16] Op.cit., p. 2. O título completo da resposta de Erasmo é Hyperaspites Diatribae Adversus Servum Arbitrium Martini Lutheri e o texto pode ser encontrado em Latim no Google Books, dividido em vários capítulos, como, por exemplo, o Capítulo Primeiro, em https://books.google.com.br/books?id=3a5RAAAAcAAJ (vol.1), o Capítulo Segundo, em https://books.google.com.br/books?id=8q5RAAAAcAAJ (vol.2), etc. É reprodução de um texto antigo, muito difícil de ler, mesmo para aqueles cujo Latim seja muito bom…

[17]   Vide Huizinga, op.cit., loc.cit.

[18] Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus. A publicação original, de 1921, em Alemão, foi feita pelos  Annalen der Naturphilosophie, de W. Ostwald, e teve o título em Alemão: Logisch-Philosophische Abhandlung. Registre-se que o famoso livro, no original Alemão, tinha apenas 76 páginas. A tradução original (a primeira) para o Inglês foi feita por Frank P. Ramsey e Charles Kay Ogden, e publicada, em 1922, por Routledge and Kegan Paul (London), curiosamente com o título em Latim pelo qual a obra é mundialmente conhecida (e que ecoa o título de um dos livros de Baruque Spinoza, Tractatus Theologico-Politicus). O texto da Proposição 7 ficou assim em Inglês, na tradução original de Ramsey & Ogden: “Whereof one cannot speak, thereof one must be silent.” Numa segunda tradução, esta de D. F. Pears e B. F. McGuinness, publicada em 1961, pela mesma Routledge and Kegan Paul (London), o texto em Inglês ficou assim: “What we cannot speak about we must pass over in silence”. O texto completo do livro está disponível gratuitamente na Internet, tanto no original em Alemão como em Inglês, através do Project Gutenberg (Internet Archive), em vários formatos: .txt, .pdf, .epub, .mobi e em edição blíngue (com as duas traduções – um luxo!). Vide https://archive.org/details/tractatuslogicop010574mbp, em um formato escaneado, para a edição mais recente e atualizada, de 1961. O texto em inglês dessa edição pode ser encontrado, em um raro formato .txt puro (chamado, idiomaticamente, pelos responsáveis pelo projeto, simplesmente de “Free Plain Vanilla e-text”), em https://ia800307.us.archive.org/24/items/tractatuslogicop05740gut/tloph10.txt. Vide também o informativo artigo sobre o livro na Wikipedia US, em https://en.wikipedia.org/wiki/Tractatus_Logico-Philosophicus.

[19] Op.cit.. A tradução para o Inglês de Ramsey & Ogden é: “There is indeed the inexpressible. This shows itself; it is the mystical.”. A tradução para o Inglês de Pears & McGuinness é: “There are, indeed, things that cannot be put into words. They make themselves manifest. They are what is mystical.” (No texto original a passagem não vem em itálico, exceto pelo trecho que aqui está sublinhado).

[20] Apud Huizinga, op.cit., loc.cit.. A tradução do Inglês é minha. As ênfases em negrito foram acrescentadas por mim.

[21] Vide Institutas da Religião Cristã, Livro III, Capítulos XXI a XXIV, especialmente o início do capítulo XXI (seções 1 e 3), onde ele discute dois perigos. O primeiro é o perigo da curiosidade: querer saber mais do que Deus houve por bem revelar, tentar “preencher as lacunas” do que a Bíblia nos ensina acerca do assunto. “Como vemos tantos, de todos os lados, incorrerem nessa audácia e impudência, mesmo pessoas que em outros aspectos não são más, é preciso chamar sua atenção para seu dever a esse respeito.  . . . Pois não é certo que o homem procure descobrir coisas que Deus houve por bem manter ocultas em si próprio, . . . coisas acerca das quais ele prefere ter a nossa reverência, não o nosso entendimento, para que assim ele possa encher-nos com o sentimento de maravilha. Ele expôs em sua palavra aqueles segredos que ele, com base na sua vontade, decidiu nos revelar. . . . Em relação às coisas que não nos foi dado saber, devemos andar, avançar e crescer, para que nossos corações se tornem capazes de um dia entender as coisas que hoje não podemos compreender. Apenas no Último Dia, se ainda estivermos avançando, viremos a saber aquilo que não podemos saber aqui. . . . Buscar, agora, mais ou outro conhecimento, além daquele contido na Palavra de Deus não é menos insano do que tentar andar num deserto em que não há caminhos (cp. Jó 12:24) ou tentar ver no escuro. . . . Assim, vamos deliberadamente deixar de investigar um tipo de conhecimento, que é tolo e perigoso, quiçá mortal, desejar ardentemente.” (Livro Terceiro, Capítulo XXI, Seções 1 e 2). O outro perigo é, a partir do reconhecimento do fato de que há coisas acerca da predestinação que Deus houve por bem não nos revelar, e que nós, portanto, não devemos procurar conhecer, concluir que é preferível não saber nada sobre o assunto. (Livro Terceiro, Capítulo XXI, Seção 3.) Aquilo que a Palavra de Deus nos revela é mister conhecer.

[22] O livro De Imitatione Christi (A Imitação de Cristo, The Imitation of Christ), escrito por Thomas à Kempis (ca. 1380-1471), escritor cristão, nascido na Alemanha, mas que exerceu a função sacerdotal nos Países Baixos (Holanda e  Bélgica de hoje), foi composto entre os anos 1418-1427, originalmente em Latim, para ser um texto devocional. O livro fez parte da chamada Devotio Moderna, da qual Kempis fazia parte. O livro rapidamente se tornou extremamente popular. Tendo sido escrito cerca de meio século antes do nascimento de Erasmo, e por um sacerdote que morava na Holanda, onde Erasmo nasceu, certamente De Imitatione Christi certamente foi lido por Erasmo e o influenciou – até porque a piedade exemplificada no livro era bastante afim à dos Irmãos da Vida Comum (Brethren of the Common Life), em cujas escolas Erasmo estudou. Vide a propósito do movimento Brethren of the Common Life  a curta mas instrutiva discussão em Kevin Madigan, Medieval Christianity: A New History (Yale University Press, New Haven, 2015), pp. 410-412, que conclui com esta observação: “Os Irmãos e Irmãs da Vida Comum não tinham a intenção de mudar o Catolicismo, nem, muito menos, de iniciar uma revolução eclesiástica. Seus objetivos eram de tal natureza que eles conseguiam alcança-los sem contribuir nada significativo para a grande ruptura que aconteceu no Norte da Europa.” (p.412; tradução minha). Para informações factuais iniciais acerca dos Irmãos da Vida Comum, de Thomas à Kempis e de seu livro The Imitation of Christ, vide na Wikipedia US os artigos: https://en.wikipedia.org/wiki/Brethren_of_the_Common_Life
https://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_à_Kempis
https://en.wikipedia.org/wiki/The_Imitation_of_Christ.

[23] O Pelagianismo é a crença de que o pecado original não corrompeu a natureza humana de forma total. A vontade humano, o arbítrio humano, permaneceu capaz de escolher o bem e o mal — sem precisar da assistência divina para escolher o bem. Embora o monge Pelágio (354-420 ou 440) tenha negado que de fato defendesse todas as teses atribuídas a ele, parece claro que ele acreditava que a vontade humana era suficiente para que, sem a assistência divina, o ser humano vivesse uma vida sem pecado — mesmo que ele precisasse da assistência divina para fazer boas obras. Assim, segundo o Pelagianismo o ser humano pode e deve tomar passos decisivos para obter sua salvação, não sendo todo o processo obra divina. O Pelagianismo foi condenado como heresia no Concílio de Cartago de 418, um concílio que não era ecumênico, mas as decisões de Cartago foram ratificadas pelo Concílio Ecumênico de 431, realizado em Éfeso. O Semipelagianismo foi uma tentativa de mediar entre o Pelagianismo, condenado como heresia, e os pontos de vista de Agostinho, seu principal crítico. Segundo os semipelagianos, é preciso fazer uma distinção entre o início da fé, sua “inceptio” ou ato / ponto / momento inicial, e o seu subsequente aumento e fortalecimento. Para eles, o ato inicial de fé é um ato livre da vontade humana, mas os atos posteriores, que aumentam e fortalecem a fé, exigem a obra de uma graça que foi chamada de superveniente. Apesar de seu esforço para escapar da condenação como heresia, o Semipelagianismo foi também condenado como herético pelo Segundo Concílio de Orange, no ano de 529. Vide, na Wikipedia US, os artigos localizados em https://en.wikipedia.org/wiki/Pelagianism e  https://en.wikipedia.org/wiki/Semipelagianism.

Em São Paulo, 18 de Junho de 2017; revisado em Salto, 20-21 de Junho de 2017; revisado novamente em Salto, 3 de Julho de 2017.

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