Dissensão e Heresia

O título completo deste artigo é:

O Problema: Dissensão e Heresia. A Solução: Reforma ou Rebelião

Seu subtítulo é:

Um Breve Ensaio sobre os Males da Ortodoxia

Não cabe tudo no espaço reservado…

o O o

O bom de escrever com total liberdade – isto é, sem ser por obrigação de um emprego regular ou por imposição das cláusulas de um contrato específico com terceiros – é que a gente pode interromper momentaneamente algo que está fazendo (até com muito gosto) para fazer uma outra coisa para a qual a inspiração veio subitamente.

É isso que vou fazer agora. Estou escrevendo, de maneira obcecada, quase febril, sobre Lutero, Erasmo e Karlstadt. Mas ao buscar uma informação específica, acabei trombando com uma discussão que vai ao encontro de um interesse antigo meu, a questão da Ortodoxia e Heresia, sobre a qual já escrevi bastante.

Vou, portanto, interromper, pelo tempo que for necessário, meu texto sobre Lutero, Erasmo e Karlstadt e discutir um pouco a questão que foi objeto de minha súbita inspiração.

A palavra “dissensão” (com “s” e não com “ç”) vem de “dissentir” (e tem um sentido um pouco diferente de “dissenso”). Dissentir é, no fundo, não consentir, não concordar, discordar, divergir, discrepar, diferir (em opinião ou sentimento). Dissensão é, portanto, uma diferença, discrepância, divergência, discordância (principalmente de opinião).

Seres humanos dissentem um do outro o tempo todo. Em casa, entre um casal, há inúmeras dissensões em apenas um dia. Vão tomar café da manhã em casa ou na padaria? Se um quer em um lugar e o outro alhures, está caracterizada uma dissensão. E assim vai. Normalmente dissensões não causam maiores problemas. No caso do casal, conversam, negociam e resolvem sua dissensão, normalmente sem que ela se torne um conflito.

Na História da Igreja e do Pensamento Cristão, houve, inicialmente, muita dissensão. Enquanto todo mundo se julgava livre para pensar o que e como quisesse, a dissensão não foi problemática, embora tenha resultado em uma grande quantidade de discussão (toda ela, a meu ver, extremamente benéfica e profícua). Havia dissentâneos (o nome que o Houaiss dá ao que deveríamos chamar de dissensores), mas não havia hereges. Hereges só passou a haver quando a Igreja decidiu, em grande parte sob a pressão do poder político que então se declarou cristão (Constantino), que a hora das dissensões estava terminada, porque havia chegado a hora da ortodoxia. Nos quatro primeiros Concílios Ecumênicos (todos eles convocados e custeados pelo Imperador, isto é, pelo poder político, que tem força para punir), os de Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451), definiram-se as linhas básicas do que seria a ortodoxia cristã. Daí para frente a dissensão sempre iria correr o risco de ser rotulada de heresia – e punida como tal. Tornou-se legítimo e oficial na Igreja Cristã, investigar, denunciar e, se confirmada como anti-ortodoxa, punir a dissensão, transformada em heresia [1].

Com a passagem do tempo, que foi acompanhada do fortalecimento do Papado, da criação do Colégio de Cardeais, da sistematização do Direito Canônico, etc., mais itens foram gradualmente incluídos no campo da ortodoxia, itens que estavam longe de ter fundamentação bíblica ou apostólica [2] – e mais difícil se tornou simplesmente dissentir, sem se tornar herege.

Enquanto se mantém a ideia de ortodoxia, algo que eu, pessoalmente, estou convicto de que deveria ser abolido, é recomendável que a Igreja, em suas diversas partições (Católica, Ortodoxa, Protestante, etc.), em suas várias denominações (algo tipicamente Protestante), e em seus diferentes agrupamentos, dentro das denominações, chegue a um acordo, se não sobre o que está incluído aqui e ali, algo que parece impossível, pelo menos sobre as categorias, ou seja, os diversos escaninhos, em que as posições teológicas, os grupos cristãos, etc., são classificados. Como disse, minha preferência é que seja abolida da discussão dentro do Cristianismo a noção de ortodoxia, de pensamento correto… Seres humanos são falíveis. As verdades humanas são, por conseguinte, passíveis de erro, de correção, de reformulação ou de abandono. Só se inclinam para a defesa da ortodoxia aqueles acreditam que é possível ter acesso, em algum lugar, a verdades não-humanas, e, portanto divinas e infalíveis. Por isso, no Cristianismo, os defensores da ortodoxia são, sem exceção, de uma Bíblia divinamente inspirada, de forma infalível e inerrante. Considero impossível que haja defensores da ortodoxia, hoje, que não sejam também defensores da inspiração divina, da infalibilidade e da inerrância da Bíblia – por mais sofisticada que seja a ginástica intelectual a que recorram, falando em chaves hermenêuticas como a história da redenção e a revelação progressiva, etc.

Mas volto ao assunto básico deste artigo, e o faço citando Carlos M. N. Eire, o autor que me provocou a escrever este artigo. Diz ele (em tradução minha, ligeiramente livre):

“Dissensão é uma constante na história, e inevitável, porque desacordo é algo que faz parte da experiência humana tanto como a respiração. A religião não escapa dessa regra. Na realidade, é possível argumentar – como o fazem alguns cientistas sociais – que a religião é eminentemente suscetível à dissensão e um terreno muito fértil para que ela surja. O discurso religioso é, de certo modo, um discurso no subjuntivo, que funde, em uma só visão, o que é real e o que é imaginado e desejado. Ele busca impor ordem em um universo aparentemente caótico, mostrando as coisas, não como de fato são, mas como poderiam ou deveriam ser, lidando mais com ideais do que com ideias, mais com versões últimas e ótimas das coisas do que com as coisas como elas de fato são. A religião é uma tentativa de transcender os limites da realidade mundana, a fim de redimi-la, bem como um processo de interação e controle social. O discurso religioso tem, portanto, um potencial ambivalente, carregado de energia e emoção. A religião pode envolver desde a idolatria do status quo, com suas reverências e bajulações aos que presentemente detêm o poder, até a iconoclastia, com sua quebra de ídolos vigentes e sua tentativa de refazer o mundo, criando um mundo novo. A religião, em sua essência, sempre teve envolveu esses dois polos: de um lado, a preservação e veneração daquilo que parece ser a verdade última, e, de outro, a exposição e denúncia de que essa pretensa verdade realmente é inverdade, exposição e denúncia que vão até o limite de fazer guerra contra as pretensas verdades que nos governam.

A dissensão aparece com muitas faces, que cobrem um amplo espectro. Ela raramente tem uma cara só. Em um extremo ela pode ser passiva e silenciosa. No outro, corajosa e gritante, a ponto de nos levar ao ensurdecimento. Entre os dois extremos, há uma linha divisória, frequentemente quase invisível, pois é tão fina quanto a nossa paciência que facilmente pode ser estendida até o limite. Essa linha divisória é, porém, tão quente como a lava de um vulcão. Ela separa e divide o reformador do rebelde revolucionário, e marca a diferença entre reforma e revolução.” [3]

Voltando para o meu artigo sobre Lutero, Erasmo e Karlstadt. Erasmo é o reformador conservador. Essa categoria, de “reforma conservadora”, não é inconsistente. Há, nos extremos, reformas conservadoras e reformas radicais ou revolucionárias, verdadeiras rebeliões. E, no meio, talvez haja reformas que não queiram ser nem conservadoras nem radicais.

O reformador conservador é aquele que não está contente com muita coisa mas não gosta de confrontos nem de brigas, que não gosta de correr grandes riscos, que não gosta especialmente de pôr em risco coisas que ele aprecia e considera valiosas, e que não gostaria de perder. Ele acha que, se alguma coisa não está terrivelmente errada, é melhor não mexer, mesmo que ela possa ser melhorada, a menos que tenhamos certeza de que, mexendo, ela vá se tornar bem melhor ainda. Erasmo é uma pessoa assim. Por isso, contemplando o que Lutero está a fazer, ele prefere menos reforma e fica, portanto, do lado direito de Lutero.

Erasmo não era um conservador. Conservadora de fato, não reformadora, era a Cúria Apostólica, conservador era o Papa, conservadores eram os teólogos católicos que chamavam Erasmo de discípulo (ou mentor) de Lutero, conservadores eram os cardeais, arcebispos e bispos que defendiam a supremacia papal e eram contrários ao conciliarismo. Erasmo era um reformador – mas um reformador conservador. Ele quer mexer num monte de coisas – mas não naquilo já sacramentado como ortodoxia pelos canais competentes.

Karlstadt, por outro lado, é um reformador radical. Ele apoia Lutero no que Lutero está propondo, sem causar-lhe maiores problemas, até que Lutero sai de cena, vai exilar-se (contra a vontade) no Castelo de Wartburgo, possivelmente até esteja morto (pois havia muito segredo e rumores nesse sentido) e Karlstadt conclui que o campo está livre para ele agir como ele acha que deve. Na opinião dele, Lutero era um reformador “de gogó”, que só falava em reformas, não as colocava em prática. Ele era diferente. Com Lutero fora da área, ele rasga os hábitos de monge, declara seus diplomas sem serventia, pede que lhe chamem, não de Doutor, mas de Irmão, resolve fazer um culto realmente protestante, não uma missa, conduzido em Alemão, vestido como pessoa comum, pregando a Bíblia (na sua interpretação, naturalmente), convidando os fieis a participar tanto do pão como do vinho na Santa Ceia, declarando que esta é apenas um símbolo de algo mais importante e que já aconteceu, e que ali, portanto, não está Cristo, fisicamente presente, sendo ofertado em real sacrifício. Além de tudo, declara o celibato clerical como uma prática não-bíblica e, coerentemente, toma em casamento – não uma respeitosa senhora, mas uma quase menina de quinze anos. (Quando seu primeiro filho nasceu, mais tarde, ele optou por não batizá-lo, por não acreditar que a Bíblia autoriza o batismo daqueles que ainda não podem crer e se arrepender de seus pecados.

Quando gente ainda mais à esquerda do que ele apareceu, gente que não queria reforma, mas revolução, que queria transformar as regras de propriedade, de participação política, de organização social, como os profetas de Zwikau, influenciados ou até mesmo liderados por Thomas Münzer, e começou, na esfera religiosa, a quebrar as esculturas de santos, destruir as suas imagens em vitrais ou papel, pôr abaixo os altares em que era rezada a missa, arrastar para a rua os padres tradicionais, de batina, ridicularizando-os, arrancando-lhes a roupa, raspando-lhe a cabeça para eliminar a tonsura, Karlstadt não endossou o que faziam – mas também não colocou sua vida em risco enfrentando-os, como Lutero esperava e, no devido tempo, veio a fazer.

Karlstadt era um reformador radical – mas não chegava a ser revolucionário (como injustamente foi acusado de ser, até mesmo por Lutero). Mas ele estava bem à esquerda de Lutero: queria bem mais reforma do que Lutero estava pronto a implementar. Mas quando Lutero voltou, Karlstadt não o enfrentou: submeteu-se à sua vontade. Quando Lutero o censurou publicamente, faz o que a consciência e a dignidade lhe ditaram: resolveu tirar seu time de campo e foi ser pastor de uma outra comunidade, fora de Wittenberg, onde poderia fazer as reformas que ele desejava. Isso mostra que Karlstadt não era um revolucionário. Ele respeita a posição de Lutero como principal reformador de Wittenberg, como líder do movimento – apesar de ser mais titulado do que Lutero, de ter sido, na Universidade de Wittenberg, superior hierárquico de Lutero, e tudo o mais que vou discutir no meu outro artigo. Lutero, porém, não respeitou a consciência e a dignidade de Karlstadt. Usando do acesso que tinha ao governo regional, conseguiu que Karlstadt fosse perseguido e precisasse fugir de onde estava.

E Lutero? Onde se situa Lutero? Ele fica entre Erasmo e Karlstadt. Nem tão conservador quanto o primeiro (que não era tão conservador quanto o Papa, a Cúria e os teólogos romanos), nem tão radical quanto o segundo (que, por sua vez, não era tão revolucionário quanto os profetas de Zwickau, Thomas Münzer, e alguns outros).

Lutero acabou sendo considerado o principal responsável pela Reforma Luterana e até mesmo Protestante, não porque fosse o melhor teólogo, o ativista mais corajoso, o negociador mais diplomata – mas, simplesmente, porque foi o mais longe que era possível, na época e nas condições vigentes, e segundo a sua avaliação, sem ultrapassar a linha que separa uma Reforma Real de uma Rebelião Revolucionária.

O fato de que os Reformadores Radicais sobreviveram, a despeito das difamações, das perseguições, e das execuções, até mesmo nas mãos dos Reformadores Magistrais, mostra que, talvez, Lutero pudesse ter ido mais adiante, sem correr risco muito maior. Mas era ele que estava na linha de fogo. Logo, era o julgamento dele que tinha de ser levado em conta, e foi. O que não nos impede, hoje, em visão retrospectiva, e numa situação de segurança, de avaliar que ele poderia ter reformado mais.

Muitos dos liberais do século 19 concordaram com os Reformadores Radicais que as Reformas Magistrais do século 16 preservaram demais do Catolicismo Medieval, e que, por isso, as Reformas Religiosas do século 16 não mudaram o paradigma religioso da Europa e do mundo – algo que só viria a ser feito no século 18, com o Iluminismo. Eu concordo com eles.

O espectro é este:

Status Quo Ortodoxo

Conservadorismo + Reforma Conservadora + Reforma + Reforma Radical + Revolução

Na hipótese de vencer algum tipo de Reforma ou uma Revolução, que destroem a Ortodoxia vigente, parcial ou totalmente, surge uma Novo Status Quo, que pode ser:

Liberal, Tolerante, Inclusivo + OU + Ortodoxo, Dogmático, Exclusivo

Conclusão e moral da história:

1) Quando uma ortodoxia é derrotada, totalmente, por uma revolução, ou parcialmente, por uma reforma que resulta em divisão / separação (cisma), é preciso cuidar para que a “nova ordem” não se torne também ortodoxa, apenas substituindo uma ortodoxia pela outra. Se se tornar, vai logo gerar nova dissensão e o ciclo começa de novo, gerando novas divisões.

2) Deixando os luteranos de lado e falando um pouco sobre os calvinistas, a igreja calvinista, que se rotulou reformada, como se as outras não o fossem, declarou-se ecclesia reformata semper reformanda: A igreja reformada é uma igreja que sempre se reforma. Ela foi, na origem, reformata, mas não foi semper reformanda. Menos de um século depois de criada já havia criado a sua ortodoxia – da qual François Turretin é o mais conhecido representante [4]. Nem hoje o é, como o prova a onipresente tendência ao fundamentalismo excludente e separatista.

É isso, por enquanto.

Notas

[1] Apesar de ele ser pequeno, não por decisão minha, esta questão está exaustivamente discutida em meu livro História da Igreja I (História da Igreja Antiga), publicado, inicialmente, como um Guia de Estudos para a disciplina História da Igreja Antiga do Curso Livre a Distância em Teologia da Fundação Eduardo Carlos Pereira (São Paulo, FECP, 2017), capítulos 2.3, 2.4, 2.8, 3.2, 3.3, 3.4, 3.5. Depois de negociação razoavelmente difícil com a FECP, mantive totais direitos sobre esse texto, que será republicado em breve, em versão ampliada, como eu desejava que ele fosse originalmente publicado. Possivelmente haverá uma versão em impressa e uma versão digital (e-book).

[2] Durante as Reformas Religiosas do Século 16 ficou evidente que muitos itens da Ortodoxia Cristã que passou a viger a partir do século 6, como (segundo os defensores da Reforma Radical Anabatista) o batismo infantil e (segundo os defensores da Reforma Radical Racionalista) a divindade de Cristo e a Trindade, também não tinham sustentação bíblica (e, quiçá, apostólica).

[3] Carlos M. N. Eire, Reformations: The Early Modern World, 1450-1650 (Yale University Press, New Haven, 2016), pp.62-63.

[4] A Ortodoxia Reformada é frequente chamada de Escolasticismo Reformado.

Em Salto, 23 de Junho de 2017

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